24 abril 2011

Inesperado sol

70

Era fraca a voz do padre no hoje é o dia das rosas que enfeitam formosas, era baixa, titubeante, como se negasse o que a canção afirmava acerca do dia, era bonita a sua voz contudo, tornando-se mais firme no ah que tristeza viver sem amor, ah que incertezas de amor nessas mãos, seu pé direito ora levantava-se nos dedos ora no calcanhar cadênciando-se na marcha-rancho, e ouvindo o padre cantar foram se retirando do quarto os que ali estavam, davam-lhe privacidade para a administração dos últimos sacramentos, a avó Luzia pedia a todos que deixassem os dois sozinhos, recolhia a xícara da mão do padre, deixava-a livre para os gestos que a oração iria requerer, os toques, pele sobre pele intermediada pelo óleo, corpo e corpo e espírito entre eles escorregando-se na testa, nas palmas das mãos, o Senhor venha em teu auxílio, perdoe os teus pecados, alivie tuas dores e sofrimentos e te conduza, alguém esbarrou-se por ali, Augustou deixou cair as chaves, o molho tilintou-se pelo chão, tinha ligeireza nos pés, Estelita nem havia percebido como voltara aquela esperteza que sempre lhe fora característica, ultimamente andavam as pernas tão fracas, pisava agora leve e ligeiro, firme, sem perder a elegância, ia pelo corredor do vagão como se por entre as fileiras de carteiras em sala de aula, da mesa ao fundo da sala, do fundo à mesa, à lousa, tantos nomes encravados nas madeiras, manchas de vidas, azuis, tantos meninos e meninas que por ali passaram, destinos desconhecidos, longe, por onde andam seus alunos?, homens e mulheres que um dia por aquelas carteiras passaram, uma aflição no rosto, olhava um, olhava outro, procurava, voltava, já estava ao lado da sua poltrona, percorrera vários vagões procurando pelo filho e, nada, sentou-se, ouvia a voz do padre, por que lembrava-se do padre agora?, gostava de cantar quando o padre vinha passar umas horas com o povo da vila, que filho Estelita? ressoava em sua mente aquela pergunta como se o padre estivesse ali na poltrona ao lado, não estava, até seria bom tê-lo por perto, como o padre não sabia do seu filho?, como?, devia contar-lhe, o padre guardaria o segredo, não era pecado o que diria, mas ainda assim segredo, não, não queria mais guardar segredo, que proclamassem para todos, guardaria somente o amor, o filho, seu filho, tivera um filho, seria bom cantar com o padre dia das rosas, o padre canta tão bem, poderia ter sido cantor, hoje é dia das rosas que enfeitam formosas, parecia ouvi-lo, o olhar pela janela pesava de saudades e de uma certa felicidade em cada recorte que o rio fazia na paisagem, por que o berço da flor vem do encanto de nós, que nascemos de nós e vivemos de amor.

9 comentários:

Paula Barros disse...

Ás vezes fico sem saber se sou eu, a minha emoção, ou se é mesmo a sua escrita, que muda o ritmo, eu vou lendo, e um certo trecho acelero a leitura, o pensamento, até os batimentos cardíacos mudam...o pensar de D.Estelita, a volta da avó Luiza, Augusto, as chaves, o padre cantando e pensando...nossa!, essa trama que prende o leitor, tão visual, tão cheia de outras histórias.

E eu tenho receio de uma fim, mas o novelo sempre tem mais fio nas mãos do escritor.

Dauri Batisti disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dauri Batisti disse...

Sim Paula,

neste capítulo o foco da narração que estava no padre volta - no cair das chaves - para Estelita, que morre e transita entre o padre que canta ao seu lado e o "trem" no qual ela vai seguindo na despedida da vida.

Então, o capítulo começa com o padre e passa para Estelita que ao morrer constroi a viagem de trem e cria, inventa ou sofre com a história de um tal filho, ao mesmo tempo em que se recorda de seus ex-alunos, professora que fora no passado.

Na verdade a cena é a mesma, a do encontro do padre com a senhora agonizante, e aqui a cena compõe-se a partir da perspectiva da personagem Estelita.

Se vc ler o capítulo 69 e o 70 seguidos vai entender bem o que digo.

Obrigado,

beijo.

Paula Barros disse...

Vou ler Dauri, com mais calma, e seguidos. De vez em quando imprimo e grifo. Um dia desses imprimi o cap 68. Meu chefe passava e dizia está tão estudiosa ela. kkkk

Esta imagem do coqueiro e do sol me lembrou um dia que cheguei na praia as 6 horas, o sol nascendo, que beleza.

Obrigada, beijo.

Paula Barros disse...

Dauri, hoje acordei e vi uma prateleira de vidro, um copo americano com água até a metade, e um cacho de rosas, daquelas pequeninas, cor de rosa, e ao lado uma imagem de Santa Terezinha, uma imagem de uns 30 cm, e só pensei que ela combinaria no quarto de D. Estelita.

Mas depois foi vindo outras cenas...que se eu soubesse escrever feito você daria um conto.

Um abraço!

Maria Helena disse...

Canto com o padre,agonizo com Estelita(no trem ,com alunos,seu filho em segredo)ouço as chaves retinindo,passo a ser personagem.
É prazeroso ler você.
Curiosidade:será que morrer é assim?
Abçs

Maria Helena disse...

LINDO POEMA!DEU-ME VONTADE CANTAR A ALEGRIA DE TODOSOS DIAS.
ABÇS.

Eurico disse...

Ouvi Maysa várias vezes...
E senti Dona Estelita esvoaçando pelo cenário de sua vida pregressa...
Acabo de ver um filme que usa esse motivo. Interessante.
Quando o foco narrativo passa a uma consciência fora do corpo, a ficção entra em um campo de mil e uma possibilidades... uma viagem.

Abraço fraterno.

Ilaine disse...

Dias das rosas... Dia de revelar segredos... A chave caiu!

Abraço, poeta!