21 abril 2011

Inesperado sol

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O padre entrou no quarto, sentiu que ali o cheiro de ervas era mais forte, tudo estava no seu lugar, cada coisa no seu devido lugar, nunca tinha entrado naquele quarto, mas pelo que conhecia de dona Estelita e do restante da casa bem sabia que cada objeto, bem limpo, estaria onde deveria estar, e dentre as coisas limpas estava dona Estelita, ela mesma como uma peça daquele cenário, leve, elegante, fina, estirada sobre a cama, já como uma morta, meu Deus do céu, pensou o padre recriminando aquele pensamento de morte, mas seria melhor morrer mesmo do que ficar ali, um animalzinho embalsamado e seco como se desitratado pelas horas de meio-dia em dias de janeiro, o lençol de um azul macio levitava sobre a cama habitado somente por um manso sopro de vento, ondas brancas de calma e despedidas se aninhavam entre o colchão e o lençol em pequenos respiros, então ela respirou mais forte, tocada decerto pela voz firme e convicta do padre, queria que sua voz fosse afetuosa, calorosa, mas tinha saído mais firme do que calorosa, sua voz tornava-se bem marcada pelos sentimentos quando cantava, gostava de cantar, muitas vezes cantou com dona Estelita, formando com algumas pessoas à porta daquela casa um grupo de prosas e cantos, dona Estelita também cantava muito bem, ela gostava especialmente de Maysa, disse, oi Estelita, bem que eu estava com saudades, aqui estou, como você está?, e seguia pensando enquanto ia dizendo suas palavras introdutórias, enquanto vencia o constrangimento de não saber o que dizer, antes da administração do sacramento da unção, que pontes ó Deus, que pontes se estendiam por sobre os seus desfiladeiros e os dela de modo a tornar a conversa entre eles sempre tão agradável?, o cheiro lhe fazia bem, queria ir ao quintal num outro caminho, mas estava ali no quarto, e dona Estelita morria, a xícara também estava onde devia estar, gostava do cheiro de ervas, a xícara branca era ornada de finas e leves flores azuis e vermelhas, sobre ela o pires a impedir o chá de perder ainda mais rápido a quentura ideal, tomou a xícara e sentou-se ao lado da agonizante numa cadeira que alguém já havia providenciado, meu filho, padre, preciso falar do meu filho, disse sussurando dona Estelita, que filho Estelita, quer um pouquinho de chá?, oferecia carinho oferecendo o chá que ela não tomaria, você não tem filhos Estelita, meu filho, padre, preciso dizer, meu filho, vi suas mãos, não vi seu rosto, mas as mãos eu vi, Sim estelita, fale, eu escuto, meu filho, padre, meu filho está aqui no trem, que trem Estelita?, estamos aqui na sua casa, tentou dizer o padre, estamos viajando, respondeu Estelita, eu e o meu filho estamos no mesmo trem, padre, mas não encontro meu filho, acho que ele deve estar num outro vagão agora, sim Estelita, sim, disse o padre sem mais querer contrariá-la, descanse Estelita, descanse, agora vou ungi-la, obrigado pela unção, padre, mas cante, cante, vamos cantar... cantar?, perguntou admirado o padre, sim... cante... dia das rosas.

13 comentários:

Dauri Batisti disse...

Amigos,
venho ouvindo Maysa cantar "dia das rosas" por vários dias, música que Maysa gravou em 1966 segundo minhas pesquisas, venho ouvindo a música para escrever este encontro do padre com dona Estelita, personagens do Inesperado sol.

Quem também quiser entrar no clima e ouvir a música ai vai o link.

http://www.youtube.com/watch?v=B5A1om0LL5k

Obrigado

Márcio Ahimsa disse...

enquanto
dormem
as flores,
acordam em mim
as dores
que plantam
silêncio
de amores,
colhem
tristezas
sem fim


Abraços, Dauri. Bela homenagem à Diva.

Paula Zilá disse...

Dauri,

lindo seus últimos percursos-escritos. Gostei muito especialmente do padre, personagem cativante!
muito bom acompanhar os trilhos que se traçam em uma tal mente, para além da mente...

um grande beijo!

p.s.: tentei ver o vídeo da maysa e te enviar o cais com milton, mas o computador aqui tá travando toda vez que ponho um vídeo. estranho, qdo conseguir, conversamos.

Paula Barros disse...

Um dia desses estava pensando que ler seu conto é quase como viver a vida, nós não sabemos o que nos aguarda, a emoção que nos invade, as surpresas que nos surpreendem, o que nos passa despercebido, ou o que nos impregna de sentimentos, lembranças e pensamentos...a vida...é exercer a paciência de aguardar os momentos seguintes sem saber se os teremos, se os viveremos...é tentar aproveitar o momento presente, que nos foge por brechas do sentir.

É querer outros rumos, assim feito queremos na vida, é nos apegarmos a algum personagem que nos cativa mas que ele tem vida própria e segue um outro caminho, é aprender a conviver com outros personagens, outras histórias, outros sentimentos...assim feito a vida.

Ler seus contos é feito ler e viver a vida, a gente se reescreve, se reiventa, aprende, se repete...

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Escutei a música antes de ler, é bom saber do seu processo criativo/elaborativo do conto, é bom participar assim. O leitor assiste seus contos feito uma peça de teatro. O cenário e os personagens são vivos, são próximos.

abraço!

ZEZÉ da música disse...

Amei,quando li seu comentário sobre a música, e nem li o conto, fui correndo abrir um site que tenho guardado como relíquia. São 100 anos de músicas e logo estava ouvindo o Dia das Rosas, que já não lembrava toda a letra. Casei-me em 1965 e Maísa lançou-a em 1966Gostava muito de cantá-la, ela fala proclamo você a rainha de nós, pois em todas as cores você foi capaz de trazer pra essa gente, um mundo de paz.
E eu, proclamo você o rei de todos nós, que pelo menos para mim traz, cada vez que leio o que escreves, um pouquinho de paz.Tu tens o dom da mente fértil. Como pode lembrar desta música e entremeá-la neste trecho do conto justamente com o padre? O site que tem 100 anos de músicas é este, para os que gostam também de música. www.plantarei.com.br/100anos/index.htm Beijos Zezé

Vivian disse...

...Dauri querido,


uma felicíssima Páscoa regada
a muita paz, é o que o meu
coração neste momento
deseja à você, e a
todos os seus
amores.

beijos!!

Maria Helena disse...

Nunca havia lido os últimos momentos de um ser humano descrito com tanto carinho e paz.
Adoro os seus adjetivos(azul macio)faz toda a diferença.
Abçs.

Eurico disse...

O texto, como sempre, urdido com sensibilidade de poeta. rs
Mas, qto ao teu comentário lá no Eu-lírico:
tb tenho essa saudade de uma corrente de pensamento que surgiu no fim da década de 1970 e 80 e que falava de um evangelho libertador.
Cá na terra tivemos um arcebispo, o cearense Dom Hélder Câmara, que muito me sensibilizou, qdo das comunidades eclesiais de base.

Considero tua saudade e a minha, como nosso reconhecimento do mérito que havia naquele movimento.
Será mesmo isso?

Te deixo um abraço fraterno, Poeta.

Paula Barros disse...

Queria ouvir a tua palavra, então leio a mensagem do cabeçalho e tento ouvir.

Feliz Páscoa todos os dias.

beijo

Maria Helena disse...

FELIZ PÁSCOA pra você também,querido amigo, e feliz chegada à GALILÉIA.
Adorei o poema.É seu?
Abçs.

Zezé da música disse...

Lindo,lindo o poema que li agora e,tudo aquilo que falou ontem. Mas é difícil esta caminhada até a Galiléia!Não?
Fui á missa hoje cedo e pedi muito por ti. Sei que também pedes por mim. Tá difícil demais!!!
Feliz Páscoa juntamente aos seus!Carinhosamente. Zezé

Paula Zilá disse...

Este é histórico!

http://www.youtube.com/watch?v=4TlvMFdyUXI


beijocas

Ilaine disse...

Dauri, perdoe a demora!

Um cheiro de ervas impregnando o quarto de Estelita... O padre procurando palavras. Teria Estelita realmente um filho? A vida ali... por um fio, no corpa frágil de Estelita. Gosto demais de suas descrições, as imagens passam perfeitas diante de meus olhos. Lindo!

Beijo