08 abril 2011

Inesperado sol

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O ar bom resvalado no superfície macia da baía vinha-lhe às narinas como uma confirmação dos caminhos que devia seguir, caminhos, hodós, 'odós, a mente povoava-se de traços cruzados, idéias de outros tempos, vinha-lhe à mente as aulas de grego no seminário, hodós, as letras gregas tão bonitas, gostava de desenhá-las em seus cadernos, inventava palavras simplesmente trocando do português as letras por correspondentes do alfabeto grego, 'odós, caminho, jornada, o caminho seria o do mar, deixar o sacerdócio, limite que se oferece, que se entrega, que se dá zombeteiro, como a loucura se avizinha do artista, como a morte se avizinha de quem vive, a cada um o limite se entrega de um jeito, sem escapatória, não, não, não seria o limite do sacerdócio o seu abandono, não, qual seria?, não sabia, rebatia-se a si mesmo, a decisão, decidira, vinha de um bom tempo de muitos pensamentos e agora ela chegava, deixar o sacerdócio, deixar e tomar o caminho do mar, ser pescador, velho sonho, velho desejo, quem sabe até comprar um barco de pesca, contratar uns homens, ganhar a vida com o próprio negócio, beira de praia, não faz mal que se deixe, se o caminho da gente vai pro mar, cantava em pensamento, o olhar cadenciava-se aqui e ali pela estrada pelo tilintar das chaves nos silêncios, muitos olhares, de cada um ali, estavam lado a lado, mas emergiam do mar das vozes caladas em olhares, as vozes de cada um condensavam-se em olhares, o padre olhou o portão da velha siderúrgica e já se abandonava de pensar sua decisão, cansado de escrever as mesmas frases nos cadernos volumosos dos pensamentos, pronto, estava decidido, a guarita abandonada, a caixa d'água parecia ainda mais alta, a água mais abundante escorrendo, que desperdício!, mas que bonito!, o ar bom soprava um aroma azul de satisfação, de liberdade, de vida sem dor, sentiu-se leve, sentiu-se bem, como em viagem que se quer muito fazer, como dia de folga no verão, respirou fundo, queria parar ali e ir andando devagar, dono de si mesmo, nômade nos rumos, mas Dona Estelita o aguardava, sabia disso, sabia que ela o esperaria, conhecia de anos aquela boa mulher, exerceria com amor aquela visita, seria a sua despedida do ministério, era grato a Deus por isto, ressuscitaria com ela, se aqueles forem de fato seus últimos respiros ressuscitaria com ela, marcaria os sinais sagrados com a mão bem untada sobre sua fronte, em cada mão, nas conchas aveludadas de suas mãos, em gestos lentos, demorados de carinho, diria as palavras com carinho, ficaria possesso de ternura, ganhara isso da vida como padre, enternecia-se com os pobres, os doentes, as crianças, por esta santa unção o Senhor venha em seu auxílio, ficaria com ela no escuro até que fosse possível, acenderia a vela, seguraria a vela na sua mão, a vela brilharia para os dois, pavio miúdo para escuridão grande mas pavio acesso, não permitiria que se apagasse, apagaria a vela depois em silêncio, cruzaria aquelas mãos de mãe, mãe mesmo e apesar de não ter gerado filho, bondosas mãos em pouso de ave sobre o peito estático, sobre árvore despedida de folhas, sobre o coração pleno, parado, realizado, ungiria-se ao mesmo tempo do óleo do amor na decisão, teria a alma leve, os pés colocados nos passos de um tempo diferente, para o que der e vier, passos resgatados das inúmeras possibilidades deixadas para trás, por onde andaria agora se não tivesse tomado o caminho do seminário aquele dia?, passos como coisas guardadas que se redescobre novas, não faz mal que se deixe, se o caminho da gente vai para o amor.

15 comentários:

Dauri Batisti disse...

Amigos que me acompanham neste INESPERADO SOL, como vocês já perceberam as chaves mudaram o foco da narração para o padre, este novo personagem.

Obrigado

ZEZÉ da música disse...

Olá!
Que bom ter conseguido hoje um tempinho para ler os últimos capítulos,como você sabe ou imagina, estes dias para mim tem sido extenuantes. Mas deixemos isto prá lá, como diz um certo sacerdote(A FESTA VIRÁ).
Obrigada pelas explicações,eu por exemplo não sabería o significado de hobós(é com h?)O molho de chaves já gira em torno do padre, mas não importa que assim seja, o bom é que o conto está se prolongando e cada vez mais lindo, apesar do sentimento de melancolía que deixou em alguns de nós, nos capítulos anteriores. D. Estelita está morrendo, mas aqui está tudo muito lindo . Parabéns! Você é também um ótimo escritor.BJS Zezé.

Eurico disse...

Os fluxos e contra-fluxos de uma agulha que corre em ziguezague sobre os sucos de um velho vinil...
O deslizar da narrativa é quase sinfonico, polifonico...
É músical... e se encadeia por compassos, por movimentos...

Tá muito bom!

Eurico disse...

Dauri,
O motivo de ter reeditado o RE-FLORESTA está lá no meu blogue Cultura Solidária.
É um regresso à fonte da vida... mesmo.

Uma subida à superfície, para tomar ar...

octavio roggiero neto disse...

Dauri, encaminhei um e-mail para você. Chegou a recebê-lo? Um abraço.

MARIA HELENA disse...

Ainda me surpreende a sua sensibilidade,a riqueza de descrições e seu jeito apurado de escrever penetrando no pensamento dos personagens.
Como sempre ,PARABÉNS!
Abçs.

Anônimo disse...

"O caminho da gente vai para o amor"
Sempre aprendi que um padre é um pescador...

Samaryna disse...

Dauri, de todas as partes deste longo conto, esta parte é a minha preferida, voltarei depois para relê-lo devido as palavras usadas ter me pego pela alma e a última frase do texto é de deslumbrar. Deixo o meu afeto.

Paula Barros disse...

Aqui, dois dias de chuva, e olhar o colorido da imagem, com flores, pássaros e sol, dá um ar de sol na alma.

O azul da outra flor estava lindo-agradável.

Com amor fica mais leve o caminhar.

Elcio Tuiribepi disse...

Olá Dauri...emocionei com o texto...com as palavras ternura, amor, carinhos e gestos
Um caminho cheio, pleno...que assim seja para todos nós...encontrar o significado da busca
Um abraço na alma

Loba disse...

"por onde andaria agora se não tivesse tomado o caminho do seminário aquele dia?"
qtas perguntas parecidas com estas não nos fazemos? como o personagem, muitas vezes nos deparamos com angústias, dúvidas e em especial com a vontade de ser muito mais simples do que somos. como se não dependesse de nós mudar estes rumos!
beijo, poeta.

tossan® disse...

Muito bom Dauri, cada vez eu me empolgo mais. Abraço

Paula Barros disse...

Mais uma semana...pássaros azuis, dia azul, leveza, brincadeira, arte, criação...

um final de semana bom.

maria carol disse...

"não faz mal que se deixe, se o caminho da gente vai para o amor"...

amei, meu amigo...
Ah que coisa boa!!!!

bjo de arvore!

Ilaine disse...

Oi, Dauri!

Penso que eu fiz confusão com os personagens. Perdoe!

Recomeçar aos últimos suspiros de Estelita. A morte e a vida nova, sempre andando juntas. A busca por aquilo que nos faz sonhar - deixar o sacerdócio e ser pescador. Lindo demais. Beijo