03 abril 2011

Inesperado sol

66

Ser apenas um pescador, voltar para um destino será possível?, pensou o padre olhando longe, será possível retomar passos não dados?, a vida seria ir para o mar, e voltar quantos dias depois com o barco bem suprido de peixes, entrar pela baía feliz por voltar do mar, tudo, qualquer coisa vista como valor de vida, bom de viver, uma caneca de café, uma conversa no cais, descarregar os peixes cantarolando, receber do patrão um dinheiro e ir para casa na encosta do morro e olhar um pedaço do mar, o mesmo que o pai avistou, a mãe, ele menino antes de ir para o seminário, fazer uma prece simples, olhar aqueles retratos na parede, o olhar do pai, austero, nobre, a mãe, tristonha, meiga, rezar ao fim do dia uma única ave-maria, na hora triste, e nada mais, nenhum outro pensamento de Deus, sobre Deus, senão aquele que passava pela saudação do anjo a uma menina, como se as palavras não se separassem e formassem uma única e longa palavra dita de uma vez e pronto, a reza estaria feita, o dever cumprido, e se entregar à vida, jogar-se num sofá para ouvir Elis Regina na vitrola, voltar a agulha para o mesmo ponto do vinil e ouvir, tá na hora e no tempo, vamos lá que esse vento traz recado de partir, meneou a cabeça para dispersar os pensamentos sem convicção de querer esquecer o que pensava, beira de praia, não faz mal que se deixe, se o caminho da gente vai pro mar, cantou baixinho, os dois sem saber o que ele cantava se entreolharam, continuou, tanta praia deixando sem saber até quando, as chaves tilintando, já tinha decidido, só faltava decidir o dia, talvez agora, talvez a visita à dona Estelita fosse uma antecipação, a madurez do fruto, a decisão, se antecipavam os eventos, não tem mar que me espante, não tem não, anda, vem comigo que é tempo, vem depressa, cantou em voz mais elevada, o que você canta padre? perguntou Augusto, uma canção triste, respondeu e continuou, mas ainda assim é bom cantar, você conhece essa música? começa assim, ê, ô, tá na hora e no tempo.

13 comentários:

CARLA STOPA disse...

Parabéns Dauri.Meu abraço.

Samaryna disse...

'tudo, qualquer coisa vista como valor de vida, bom de viver'

Dauri, que felicidade de frase, simbólica, poética, filosófica. O interessante do seu conto que ele caminha para um final que provavelmente não saberemos, talvez seja por isso que o título é "inesperado sol". Deixo o meu afeto.

MARIA HELENA disse...

"...beira de praia,não faz mal que se deixe,se o caminho da gente vai pro mar..."Lindo canto e com diversas interpretações.Fiquei vários minutos divagando,deixei minha imaginação chegar onde não posso ir e isso pra mim é vida.É um sol que espero todos os dias e assim sou feliz.Obrigada por todos os textos.
Abç

Paula Barros disse...

Me emociono ao ler. Sempre!
Olhos inundados, reflito a vida. Seus personagens são humanos, sentem, pensam, sofrem, se angustiam, olham a vida, amam, se encantam com a natureza...e me mostram a vontade de viver uma vida mais simples...

E vou buscar uma frase no texto abaixo, para fazer link, com esse viver a vida, que me toca.

"era um olhar de quem queria estrada de beira de mar, passos em areias macias, cheiros silvestres e maresias"

abraço.

Loba disse...

vim subindo e neste ultimo texto percebi o qto o mar tem presença forte no seu relato. é mais um personagem do que um cenário.
gostei desta pergunta: será possível retomar passos não dados?
será possível?
beijo!

Eurico disse...

Cheguei a ouvir a Elis cantando Edu Lobo ou Dorival Caymmi...

Essa analogia entre a vida e a saída dos barcos pro mar, sua volta, é uma das mais belas que já li.
A vida é trabalho, dizia o poeta Gonzaguinha...
Minha jangada vai sair pro mar, cantarolava Dorival..

Eita, amigo, me fizeste sair de mim...
Isso faz um bem danado.
Vou tomar "uma caneca de café"...

Abraço fra/terno.

Dauri Batisti disse...

A música que o padre canta é veleiro, composição de Edu Lobo e Torquato Neto e interpretação de Elis Regina, de 1967, visto que o conto se passa em 1968.

Paula Barros disse...

Fui procurar a música, ouvir e ver a interpretação de Elis.

Essa interação, é feito disse Eurico: "isso faz um bem danado"

Deixo o link para quem mais quiser olhar.
http://letras.terra.com.br/elis-regina/576981/

Paula Barros disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paula Barros disse...

Enquanto não atualiza o conto, eu aprecio as imagens, o passarinho com carinha de gente, as flores amarelas delicadas, e agora estas árvores coloridas e os pássaros...

abraço!

Ilaine disse...

Ondas suaves balançam os pensamentos de Dias, ao som da voz de Elis. E a presença do mar em sua vida: pescador, os peixes e as conversas no cais... Que lindo, Dauri! Também destaco esta frase: "Será possível retomar passos não dados?" Poderíamos conversar sobre esta frase longamente, Dauri, enquanto o café fumegante na xícara nos traria idéias mornas sobre os destinos... Beijo

Paula Zilá disse...

o vento, me parece, sempre traz alguma coisa, não é?

as memórias guardadas do menino, que não foi peixe, mas padre a rezar, a vida passando, bordando no tempo suas marcas, um cambaleante alinhavo, que ora da nó, ora rompe, ora irrompe...

a vida!

à vida!

inté!

e sempre um convite.

é sempre um convite

vem comigo nesse veleiro

Carla Diacov disse...

ungindo-me do teu óleo de amor na tua arteira decisão!


beijos!