05 março 2011

Inesperado sol

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Foram apressados na direção dos escritórios gerais onde estava a caminhonete, Dias se concentrava no pedido da avó, o andar quase correndo do gerente dava-lhe um sentimento de que ia conseguindo o que almejava, antes que supunha, aquela amizade, uma intimidade de parceiros, seguia-o, queria manter-se nos passos ao seu lado, mas não conseguia, não por não ter pernas para isso, mas porque algo, um pensamento se infriltava por entre seus respiros para dizer em voz baixa que ele deveria adotar um rítmo de alguns passos de atraso em relação aos dele, era melhor, sentia uma excitação, uma alegria e um desepero, tinha o que um momento pode dar mas também a sensação de que logo fosse tudo perder, como se a solidão rompida por uma longa rachadura instantaneamente se refizesse, peça única e inteiriça, ainda mais pesada, olhava o andar daquele homem, seu corpo, achava-o ainda mais bonito em movimento, almejava semelhanças, haveria umas semelhanças, haveria de descobrir e ficariam ainda mais próximos um do outro, mas voltava o pedido da avó a bater-lhe na mente, condenava-se por não se libertar daquela idéia estúpida e romântica, mais romântica do que estúpita, acertou seus pensamentos, devia esconder-se ainda mais, deixava rastros no entanto, sempre, fazer o quê? Enquanto deu a volta para entrar na boléia pelo outro lado o gerente já tinha dado a partida no carro que roncava forte, era como se fossem fugir, a cena comum, mas sempre bonita, capaz de despertar nos olhos de quem assiste um sentimento terno, o carro indo pela estrada afora, levantando poeira, e eles embriagados de alegria, rindo, rindo, rindo, juntos deixando tudo para trás, cheios dos desejos de vida, de aventura, a cena se desfez, ao ronco em ondas do motor se somou a pergunta do gerente sobre onde a tal mulher morava e Dias respondeu que tinham que ir logo até a Igreja de São Pedro buscar o padre como lhes fora pedido. Que padre que nada, respondeu Augusto, vamos até a casa dessa senhora, é melhor levá-la ao médico.

7 comentários:

Dauri Batisti disse...

Vou indo com as últimas postagens do Inesperado sol, já é hora. Obrigado aos que vão comigo.

Zezé da Música disse...

Olá,estou usando agora esta expressão, porque os jovens falam assim. Depois de um dia bem cansativo,mas saudável e alegre com alguns netos, tive a grata surpresa deste capítulo. Como você disse, já estava na hora, e está ficando cada dia melhor.
Estou ansiosa para saber qual é a do Dias, e também qual sería o pedido da avó(essas avós...!)
Em época de carnaval muito lindas as figuras. Se são Pierrot e Arlequim, cadê a Colombina?
Com carinho!
Zezé da Música

EDER RIBEIRO disse...

Há texto que valeria somente por uma frase, o seu é muito mais do que isso, pois vc consegue imprimir imagem com palavras, mas, querido Dauri, sou obrigado a destacar esta frase, "como se a solidão rompida por uma longa rachadura instantaneamnete se refizesse, peça única e inteiriça", para dizer que frase como esta já valeria pelo texto todo. Parabéns. Abçs.

Dauri Batisti disse...

Zezé,

o pedido da avó a que o Dias se refere aqui é o de ir buscar o padre para atender a tal mulher que está mal.

Colombina? sim, sim, vamos ver se arranjamos uma.

Zezé da Música disse...

Valeu, muito obrigada!
Eis aí a colombina. Só, que não sei se ela está com o Pierrot ou o Arlequim, pois os dois vivem na disputa por ela.
Lembra da música? Um Pierrot apaixonado
Que vivía só cantando
Por causa de uma Colombina
acabou chorando, acabou chorando, etc.
Abração, Zezé

Ilaine disse...

As frases longas desse capítulo espelham o momento: o despertar e as descobertas... Sim, é lindo o texto.
Beijo

Loba disse...

daqui eu pinço o que mais mexeu comigo:
"carro indo pela estrada afora, levantando poeira, e eles embriagados de alegria, rindo, rindo, rindo, juntos deixando tudo para trás, cheios dos desejos de vida, de aventura..."
me fez lembrar de outros tempos, quase outra vida...