14 janeiro 2011

Inesperado sol

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O que você quer? reagiu Augusto assustado. Saí para fumar, respondeu o rapaz admirando a caminhonete e dizendo gostar daqueles modelos antigos. Saiu para fumar disse Augusto num tom que era outro, bem diferente do que a frase dizia, saiu para fumar, repetiu irritado. O rapaz ignorou a leve ironia, e demonstrava interesse pelo carro, rodeando-o e olhando os detalhes. Faz tempo que o senhor tem este carro? O modo de segurar o cigarro, de dar as tragadas tinha um quê de ensaio, de quem fuma a pouco tempo. O senhor não está gostando da festa? vai para outro lugar? fez outra pergunta sem esperar a resposta da primeira. Não, simplesmente vou para casa, tenho muito trabalho, muitas coisas a ver, respondeu, preciso descansar. Olha, disse o rapaz, se o senhor precisar de um auxiliar de escritório tenho experiência, no quartel fiquei nos trabalhos administrativos ajudando o sargento. Sim, disse Augusto, obrigado, mas por ora não vou contratar ninguém, me são suficientes os homens para a limpeza do lugar, recolhendo o ferro-velho; neste momento ja se assentava ao volante, e o rapaz, pela porta do carona que tinha pedido licença para abrir, admirava o painel da velha chevrolet. Sou apaixonado por este tipo de carro, disse o rapaz enquanto dobrava-se sobre a poltrona para olhar melhor. Quando disse apaixonado separou demais as sílabas, e a palavra ficou com um tom afetado. Não se importou com isso, até parecia ter um certo prazer, numa postura completamente diferente daquela que adotava debaixo dos olhares vigilantes do estivador. Sobre o acento do carona estava o molho de chaves.

5 comentários:

Paula Barros disse...

Li. Aguardo o próximo.

abraço.

Eurico disse...

Também li.
E é interessante acompanhar o texto, como em um folhetim. E essa condição de comentar o folhetim é uma coisa nova e diferente. Interagir com o autor em seu ofício... é bom, mas é estranho.rsrsrs

Gosto dos estranhamentos.

Aguardo novas postagens.

Jacinta Dantas disse...

Agora estou curiosa para saber qual será a importância dessa nova personagem no enredo. A personagem o "olhar morno e mãos macias de barbeiro"

Bom domingo

Márcio Ahimsa disse...

quando num estreito
canto,
o olhar divaga,
acuando a hora infeliz,
nem tempo rude - não -
apenas esboça
falar, mas os lábios calam,
também o corpo fenece.
ainda assim
os olhos dizem,
estranhamente cheios
de algum brilho,
a coisa toda
rodeada de desencanto,
uma sensação que não
causa euforia,
mas uma atmosfera
que enferruja o
instante no
inesperado encontro
de desconhecidos.


Abraços Dauri. Tua habilidade no trato com as palavras, aqui, prosa poética, continua saltando aos olhos como bolas de ping pong assaltando o instante mágico de uma criança. Bom domingo.

Jacinta Dantas disse...

Voltei, Dauri,
voltei só para dizer que coloquei, lá no florescer, um comentário que vc deixou numa postagem minha de 2008. Gosto de registrar esses "efeitos"

Beijo