18 maio 2010

Inesperado sol
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O teto não lhe sorria, pois que sorriso não teria mais, aquele, lembrou a pressa, era necessário ter pressa, sempre, sem descanço, quis ter pressa, mas não tinha, tinha que tirar do alto os olhos, olhar para o chão das estradas, pisar fundo no acelerador. Forçou a pressa, ela não veio, os olhos percorriam as linhas do forro, as teias, as lâmpadas. A cor, que cor seria aquela?, não era branco, mas amarelo também não, algo ali entre um e outro, o olhar corria lento de um ponto para o outro enquanto a pressa se corroia em disperdícios de idas e fugas. Era bom estar ali, calado, sozinho, escondido... até quando? Forçava-se em levantar da cadeira, em descer daquela sala, pegar a caminhonete e ir embora, mas aquela sala agora tinha algo dele, a limpeza que fizera, podia ficar umas horas a mais, dormir ali quem sabe e bem de madrugada se ir.

Voltou-se do teto, levantou-se, foi para o outro lado da mesa e tomou o lugar do chefe, quem seria? de quem seria aquela cadeira quando dela se ordenou o último mando? perguntou-se. Confundiam-no com o novo gerente, por agora era bom sentir-se assim, quem ele não era. Da cadeira do gerente, ou do dono, ou do presidente se avistava a porta, ela estava aberta, esquecera assim limpando a sala, o vento corria da janela pela porta afora, arrepiou-se, correu para fechá-la, trancou-se e voltou para a cadeira. Tinha que se renovar nos planos, disse para si mesmo, manter a cabeça no lugar, pensar cada passo, mas já estava bem longe, podia relaxar um pouco, dar-se um descanso, permitiu-se. Fechou os olhos e ouviu os meninos lá fora, já não brincavam mais de avião.

5 comentários:

Elcio Tuiribepi disse...

Dauri...desculpa a ausência, mas ando numa correria doida por causa do Espaço Aberto tnho quase que me limitado a responder os coemntários que chegam...pois faço questão de tentar fazê-lo...pois é um prazer receber os amigos lá no Verseiro
Seu texto fez com que eu olhasse pra mim mesmo ...ssa coisa da pressa...

Tinha que se renovar nos planos, disse para si mesmo, manter a cabeça no lugar, pensar cada passo, mas já estava bem longe, podia relaxar um pouco, dar-se um descanso, permitiu-se....

Estou aos poucos fazendo isso...rsrs

Um abraço na alma...

Mai disse...

A cor do tempo é a cor do pó, e talvez seja cinza ou algo levemente amarelecido. A pressa não vem porque a lembrança é mesmo lenta e carece ser faca prá cortar o fio da memória, mas a lâmina faz sangrar. As crianças que brincavam já foram, talvez mais um dia tenha passado, lento, sem planos, sem destino, sem sentido e só.
Mas ele tem a estrada, as retas, as curvas, a velocidade. Há como não pensar em tudo que habitamos, abrigamos? Estar
On the road é tão nostálgico quanto pisar o chão quando se sente só.

Tá muito bonita esta primeira parte em que se revela os sentires deste homem. Vida silenciosa e tão plena de ruídos e desassossego...

um beijo

EDER RIBEIRO disse...

O teto não lhe sorria, pois que sorriso não teria mais...
Esta personagem, só por este trecho, percebe que é um ser solitário, e, você, caro Dauri consegue transmitir isso tão bem. Abçs.

Ilaine disse...

Reflexões, mistério e a solidão nesta sala. "Era bom estar ali, calado, sozinho, escondido..." Este inesperado sol comove e envolve. Sempre belo,Dauri!Abraço

Luis Eustáquio Soares disse...

em busca do tempo reinventado, dauri, sua série narrativas sobre um pretérico mais que perfeito,um vivido passado mais passado que o passado-memória do texto, abrumando um futuro que não será, na força de um presente-texto, que é, e se basta, vivendo-se escrita.
saudações,
luis de la mancha