15 maio 2010

Inesperado sol
7

Ficou ali no carro por uns momentos, desses em que a vida parece ser apenas a recordação de dias. As recordações, no entanto, se esvaem como nuvens que mudam de forma e cedem lugar aos desafios de viver. Retomou a chave, foi em direção ao prédio, abriu a segunda porta. Não quis olhar o ambiente, mesas, máquinas de escrever, armários, janelas fechadas. Subiu logo à sala no andar superior, uma outra porta e tudo estava bem disposto, quase arrumado, mas tudo coberto de poeira e de um ar que mesclava mofo e sonhos. Desceu e procurou uma copa, uma cozinha, um banheiro. Entrou numa cozinha, abriu a torneira, a água jorrou forte e enferrujada e logo clareou. Tomou um balde ali num ármario depois de abrir e fechar muitas portas em cômodo escuro anexo à cozinha. A água continuava jorrando em barulhos de vidas insurgentes. Não sabia exatamente o que aqueles gestos criavam em relação ao futuro, mas executava-os como se os propósitos fossem claros, lógicos, com intenções produtoras de muitos sentidos para um dia.

Mas não, absolutamente não, não sabia senão o que procurava, um pedaço de pano. Ali estava, ao chão, resseco e cinza. Tomou-o, serviria, mergulhou-o no balde e ele reviveu-se entre soltar a cor e avolumar-se como um universo em expansão. Esfregou, esfregou o pano, trocou a água, esfregou e torceu o caldo escuro e suculendo dos dias presos nele. A maciez voltou, o cor se amenizou de suas asperezas cinzas e fadigas. Havia desejos de amarelos, de vermelhos e vinhos, mas apesar dos torções, das trocas de água, dos esfregões, o domínio do peso, do chão, do tempo persistia em suas fibras. Encheu o balde uma outra vez, mergulhou-o totamente na água. Lembrou-se da segunda porta, largou o balde aos pés da escada e trancou a porta, sentiu-se melhor.

Subiu como se já fosse conhecedor de cada degrau daquela escada em muitas subidas e descidas, entrou na sala e olhou para a mesa. Grande, de madeira escura, com boas e várias gavetas de cada lado do folgado vão para a cadeira. Cuidadosamente retirou o que estava sobre ela, papéis, livros, canetas, pedras coloridas, duas verdes, uma ocre, que serviam de peso para segurar papéis, um cavalo de bronze. Mergulhou as mãos no balde e sentiu a água. Não a tinha sentido ainda, sentia agora, era a água que vinha daquela velha caixa com certeza, água fresca, confortável como luva que lhe vinha ao relógio. Olhou as horas, o metal reluziu en refração, não se importou com a hora, tomou o pano bem torcido e percorreu a superfície da mesa de um lado a outro na horizontal, fez caminhos retos, tortos e um brilho foi se acendendo na madeira, quase também em seus olhos.

6 comentários:

Mai disse...

A memória é lenta. Por vezes é pó, por vezes é água que mina de qualquer superfície e que por vezes cai como ferrugem das torneiras ou lágrima que verte dos olhos. A chave abriu nesse homem, a casa e a memória.
Incrível como você conseguiu transmitir a história acumulada sobre os móveis, nas cenas e no ritmo do texto.
Diferente das mulheres, a dor do homem é silenciosa, lenta, estóica.

Muito bom ler você com essa poesia de interior.
um beijo.

Eurico disse...

Poesia de interior e poesia interior, Mai. A poesia brota à revelia da aspereza, da concretude que se busca em prosa...

Há uma poíesis que aflora, água limpa, nesses contos, Dauri.

Abraço fraterno

Ilaine disse...

Dauri!
Perdoe, eu andei sumida. Prometo, no entanto, que haverei de ler os capítulos que faltam.Na verdade, eu estava com saudades daqui. Muitas! Nestas páginas encontro um linguajar cheio de lirismo que me faz um certo bem. Leio e me vejo entrando em outro mundo - no mundo de tuas palavras. E absorvo as imagens e este suave conto que está a contar. Sempre belo. Delícia de texto.
Abraço

Mª Helena disse...

Valeu apena esperar e esperar.Só um grande poeta para transformar o gesto trivial de passar um pano encardido no chão em algo tão belo e cheio de significados.Ritmo e estrutura lindos .Até as cores das pedras que estão sobre a mesa parecem refletir o interior do personagem.
Abç.

Mª Helena disse...

Valeu apena esperar e esperar.Só um grande poeta para transformar o gesto trivial de passar um pano encardido no chão em algo tão belo e cheio de significados.Ritmo e estrutura lindos .Até as cores das pedras que estão sobre a mesa parecem refletir o interior do personagem.
Abç.

EDER RIBEIRO disse...

Estou pondo em dia a leitura do conto. Abçs.