21 abril 2010

Inesperado sol
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Logo encontrou o prédio da administração. Estava ali, imponente ainda, mesmo que no desuso e na carência de reparos, sobre pequena elevação do terreno, bem defronte ao cais e a uma certa e boa distância da siderúrgica. Um prédio de dois andares em estilo eclético que parecia datar das primeiras décadas do século vinte. No frontal, acima da porta principal ladeada por quatro janelas de cada lado, o mesmo se repetindo no andar superior, também se via aquele nome que se derretia no alto da caixa d'água.

Apareceram assim como que do nada quatro meninos capitaneados por um branquelo e magro de uns onze anos que foi logo perguntando se ele iria reativar a fábrica. Olhando para as chaves estava, olhando para as chaves continuou sem lhes dar atenção. Tentava descobrir e acertar de primeira a que abriria aquela grande porta de entrada. A porta está aberta, senhor, disse o tal menino, a segunda é que está trancada, e bem trancada, e o menino disse isso empurrando a banda direita que foi cedendo e girando sobre suas dobradiças sem ranger.

Como por uma simples vontade de contrariar à gentileza e esperteza do menino, mas não era isso que lhe definia as atitudes naquele momento, voltou à caminhonete alvorada 62 e ordenou com uma certa rispidez que os meninos o deixassem trabalhar. Saindo correndo com os braços abertos brincavam de aeroplanos voando, os quatro aviões tinham uma das asas se formando em desequilíbrio com o resto do corpo pois levavam goiaba em uma das mãos, ou outra fruta mordida, não reparou bem. Nos roncos guturais e suaves daqueles pequenos aviões ele ouviu um indistinto mas apertado sentimento, uma música, stardust talvez, ou o som descompassado que se deu no vão entre a porta que o menino abriu e o filho que não chegou a ter com ela. Amava-a. Desacreditava do amor, amor, que amor é esse? amava-a. Embora o meio-dia não tivesse marcado o rosto de ninguém por ali, aquela música fazia o sol ir adiantado, bem adiantado em tardes de olhares nômades.

13 comentários:

EDER RIBEIRO disse...

A imagem que se cria lendo o último paragrafo é de estontear. Cara vc está cada vez melhor nesta divina arte de prosear. Parabéns. Abçs.

Opuntia disse...

Meninos e voos parecem se completar. É bom dar ouvidos às crianças, talvez esse seja o começo da liberdade...


Bjos

Zzr disse...

Interessante essa relação de chave com sentimentos, vínculos afetivos nossos. Estive pensando e também já produzi. Agora, misturar infância com todo esse clima de fim de tarde é maravilhoso, pra não dizer perfeito.

Abraço.

Mª Helena disse...

As crianças aviôes,a fruta mordida na mão de uma delas,o som que suas bocas produzem,a música,a crança que não houv o tempo que não marca formam algo profundo e maravilhoso que não consigo expressar com palavras.
Abçs

Mai disse...

Lugares, sons, melodias... A memória orbita entre os sentidos e desperta o que adormece.
beijo

Espaço Aberto disse...

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Vivian disse...

...boa tarde, contador de
histórias que se desenrolam
aguçando sentidos fazendo-os
voltar no tempo, breve tempo
de todos nós.

um beijo com xodadis docê!

mundo azul disse...

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É engraçado, como algumas pessoas não se dão bem com a espontaneidade, a alegria que não conseguem ter...É bem insatisfeito esse seu amigo.

Dizer que gostei muito, é cair no comum, mas, é isso... Você e as palavras tem um estreitíssima relação! Adoro ler os seus textos!


Beijos de luz e o meu carinho...

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paula barros disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
jorge disse...

Prezado Dauri,

deixei um convite em meu blog.

Forte abraço,

Jorge

Jacinta Dantas disse...

Daqui, sigo
acompanhando história...

Sigo.

Saudade de você.

Beijo

Mai disse...

Tô sentindo tanta falta do inesperado sol...
Ele me salva em muitas horas.
Já li e reli e continuo esperando.

Essa palavra, tua palavra faz falta.

um beijo

paula barros disse...
Este comentário foi removido pelo autor.