06 abril 2010

O último porto do rio ( ÚLTIMO CAPÍTULO)
56

Do outro lado, em frente à igreja, em morro ainda mais alto, o cemitério. Com as calêndulas nas mãos, olhei para o altar da santa, fiz um pequeno gesto de reverência com o inclinar da cabeça e saí, sem me persignar. Fui sozinha, o marido voltou para a venda, subi o morro com o ramalhete nas mãos. Há momentos em que não se pensa, ou o que se pensa é o passo que se dá, o lugar certo de pisar, o lugar certo a se olhar na paisagem nova. O que se pensa pode ser também o sentimento de um fluxo de coisas esquecidas, lembranças e desejos, o que se quis e o que se viveu. O que se pensa pode ser ainda o não querer pensar no amanhã. O momento ali me bastava, se me explico.

Não sei te dizer se era belo ou não o dia, o sol de verão no céu lavado e arejado garantia uma melancolia de meio-dia. Tu já sentiste a melancolia do meio-dia, um caminho entre ir e se deixar levar? entendes? O grupo que tinha acompanhado o enterro descia, entre eles uma pequena criança com um olhar de mundo grande em rosto apertado de sustos, uma menina, levada ao colo por um senhor negro.

Um distinto senhor, bem vestido, de pele clara, o único dentre os negros que participaram do funeral, estava ainda de pé olhando a cova coberta de uma terra avermelhada e úmida. Não havia nele sofrimento, apenas luto. Tu não entendes? confesso, também não, estabeleço entendimentos ao modo de inventar sentidos para o mundo que se abre em meus titubeios. Agora vejo que um luto sem sofrimento é um luto que joga o olhar bem longe, um olhar que despreza o perto, um olhar que atravessa o que está posto e enxerga lá. Tu agora entendes, eu sei, teu próprio olhar não nega, tantas vezes eu percebi que enquanto tramavas os arranjos de flores teu olhar enxergava lá. Eu digo, e não me contestarás, tu avistavas lá por e através do que fazias. Enxergar assim dói mais, e ao invés de dar existência ao sofrimento, salta-se para o luto.

Ele dobrou-se e acariciou o nome na cruz, Maria júlia. Despedia-se com um último gesto, mas ainda não era o último. Então ele arrancou os sapatos e as meias. Ó florista, um seu pé era negro. E ficou ali plantado com os pés na terra, depois, com a quietude rompida por pequenos ruídos em campinas anoitecidas à beira de estrada vazia ele olhou-me e se foi, com os sapatos pendurados nos dedos da mão direita. Fiquei ali. Cantavam ao redor do cemitério, nos matos e árvores, estes pássaros que se alvoroçam e calam ao meio-dia.

Tentei tirar do ramalhete umas calêndulas para deixar no entrecruzamento da madeira com o nome, outras eu colocaria aos pé da cruz, outras eu deixaria cair assim, ao sabor da queda, sobre a terra. Não consegui. O que fizeste, ó florista, com os arranjos, com as dobras dos arames, de que maneiras amarrastes todas as diferentes flores num único feixe? Espetei meu dedo, que sangrou, e não consegui arrancar do arranjo uma calêndula sequer. Então desci, e fui até a margem do rio e naquela terra densa e úmida plantei o buquê de calêndulas, depois voltei-me para a barcaça, abri a sobrinha e desci minha mão marcada de sangue nas águas do rio.

FIM

10 comentários:

Mai disse...

Um olhar perdido na lonjura do mundo..." um luto sem sofrimento é um olhar que despreza o perto"
...E a gente perde tanto tempo com coisas miúdas.
um forte abraço


P.S.
Conseguirias 'zipar' os 56 capítulos ou me autorizarias copiá-los?
Eu gostaria de ler e reler outras vezes.

Eurico disse...

Hora de retomar o fôlego e fazer a releitura.
Depois volto até aqui... agora, volto à nascente.

Ilaine disse...

Dauri! Eu me emocionei. O ramalhete de calêndulas, as lembranças, as coisas esquecidas, o momento, deixar cair, ao sabor da queda...

Amigo, faltam-me as palavras para comentar... Deixo aqui o meu carinho e admiração.


Beijo

Jacinta Dantas disse...

Caramba, Dauri!
esse desfecho é...

Meu Deus!
tirar os sapatos, colocar os pés na terra(um pé preto) e ir embora, com o olhar para frente.

Adorei acompanhar vc nesse conto.
Beijo

Mª Helena disse...

Deixa-me sentir cada palavra,cada som,cada meia-volta e pensar...
Abraço

Léo Santos disse...

Grande visual tem a tua narrativa, me remeteu a um lugar perdido, um lugar funéreo! Parabéns! Voltaremos!

Um abraço pra ti!

Wilson Torres Nanini disse...

Depois de caído o copo, difícil colar os cacos sem deixar sequelas no conteúdo. Sua narrativa suscita o aprimoramento. Foi bom ter descoberto seu blog.

Abraços!

Márcio Ahimsa disse...

...mas as calêndulas dispersas no vão do tempo, ou espalhadas pelo casco do barco, são as nossas pétalas de dias despedaçados...

Abraços.

ex-controlador de tráfego aéreo disse...

Depois de uma ausência, voltei e reli um ou dois capítulos até chegar ao aqui, no fim. Devo confessar que suas palavras buriladas na oficina da memória causaram impacto e facilitaram as imagens da viagem proporcionada pela leitura. Esse tipo de leitura sempre me agrada. Como já disse em comentário anterior, lembra-me Bernardo Guimarães falando de Goiás em seu O garimpeiro. Parabéns e obrigado por brindar-nos com sua escrita, Dauri.

Um abraço fraterno!!!

cf disse...

"Tu já sentiste a melancolia do meio-dia, um caminho entre ir e se deixar levar?"

Entendo. Ao meu modo, mas sim, entendo.

abç