04 abril 2010

O último porto do rio (penúltimo capítulo)
55

Estava ali no altar uma Imaculada Conceição, linda como nunca vi, talvez exatamente assim eu enxergasse a santa porque meu olhar era solto de outros pesos naquele lugar. As curvas do seu manto esvoaçantes faziam dobras de coisas distantes, eventos e acontecimentos adormecidos, mas presentes, como um corpo morto mas ali, marcando um território no silêncio da capela, onde o eco de qualquer ruído era a resposta, a irrupção de dias já idos e cores envelhecidas em novos pedidos à minha alma. Perco-me em dizer-te, refaço-me em escoras mau erguidas nestas palavras, desculpa-me. O marido percebeu meu olhar cativo daquela imagem, mas não sabia ele que o que me detinha na escultura era a curva do manto que contornava o braço direito da santa, do ombro até a base de suas mãos postas sobre o peito. O tecido contorcido e leve ao mesmo tempo, num dourado triste e gasto de muitos olhares, dobrando-se sobre o azul fosco da face externa do manto, o vermelho escuro da túnica por baixo, ó florista, definiram para mim um lampejo de vida, qual não sei dizer além do que digo.

Ali não rezei, não se reza a uma curva, eu sei, meu Deus, o que falo? Lembrei naquele momento das tuas calêndulas, o belo ramalhete, e disse em voz alta, As calêndulas! O marido perguntou-me, Que calêndulas? As flores que trago na barcaça, respondi. Sim, sim, disse-me, aquelas flores que mandas fazer para as covas dos indigentes? Sim, respondi, mas estas quando encomendei tinha a senhora tedesca na intenção do presente, escolhi com cuidado o tipo de flor e como deveria ser o ramalhete, vistoso e abundante de tons de amarelo, nenhuma parcimônia na ilminação do buquê. Depois desisti da idéia e trouxe as flores comigo. Queres oferecê-las à santa? vou buscá-las, ele disse descendo o morro da capela.
Enquanto ele foi até a barcaça voltei-me para a porta da igreja e ali fiquei entre a sombra e o sol naquela linha tão bem definida, mas imprecisa todavia, a cada segundo movendo-se sem se mover. O rio espraiava-se manso, cumplice da curva, mostrava-se ali mais feliz, menos triste talvez seja o melhor a dizer. Ó florista, se tuas mãos hábeis elaborando singulares formas e arranjos me ajudavam a dizer coisas que normalmente ficariam sem nome, o rio depois da curva do manto da santa, o Santa Maria cúmplice da curva no deixar as coisas irem, o rio vagarosamente desbarrancando a curva em carinhos de destruição, o rio, ó florista, o rio ali me diluiu como a um torrão de barranco. Haverás de me supor estranha, na verdade o que sei dizer é que a curva paria-me em número impar. Dói ainda o descompasso de nascer na imparidade, coisa que vai me refazendo contudo, pressinto.

5 comentários:

Maria Helena disse...

É impossível dizer qual capítulo é o mais pitoresco,pois cada um é único em beleza,intensidade,cor e sentimentos assim como os seus prsonagens.Li várias vezes o capítulo 54 e esse agora, e senti-me embriagada com seu jeito singular de jogar com as palavras.É um prazer íncrível ler você.
Abraço.

Elcio Tuiribepi disse...

Olá Dauri...obrigado digo eu...hoje te deixo um pequeno texto que gostei muito e resolvi compartilhar com os amigos...

"Eu ainda acredito nas pequenas gentilezas e sutilezas esperadas e inesperadas daqueles que dizem amar.
Os espinhos fazem parte da rosa e não ferem senão aqueles que a tentam tocar ou colher.
Ao regar a rosa, regamos também os espinhos, mas não podemos permitir que eles se tornem maiores do que ela.
Regamos para ver seu botão florescer, pra vê-la tornar-se bela, grande e exalar seu perfume pelo ar.
Espinhos fazem parte, mas o essencial é a flor."

Um abraço na alma...feliz páscoa

Mai disse...

O pressentimento é uma angústia que se disfarça. Mas a imagem das pétalas de luz das calêndulas, imantou-se em minha memória.
Esperar o desfecho é pressentir... Enfim... tudo passa, tudo acaba.
um beijo

Ilaine disse...

"Definiram para mim um lampejo de vida..." Dauri, "tuas mãos hábeis" de escritor me conduzem por este capítulo, enquanto vou absorvendo as figuras que se desenham diante de meus olhos. Belíssimo. Aguardo...

Abraço

Eurico disse...

"estou tentanto pensar a literatura como a escrita de um pensamento delirante,(...), que (...), institui no leitor a possibilidade de subversivos, resistentes e novos pensamentos, discursos, ações... ética." (fragmento de comentário teu lá nos Ensaios, da Ilaine)

Seria essa idéia acima, uma sugestiva, mas vertiginosa, rosa dos ventos para quem navegar por essa caudalosa e polifônica novela?