20 março 2010

O último porto do rio

52

As noites, passadas, todas, se somam em peso e caem sobre o quarto, de repente. O espaço entre o que falávamos silenciosamente e o momento do cair das noites, parece, não existiu. Maria Júlia afrouxa o aperto que mantinha com suas duas mãos sobre a minha direita pousada sobre o seu peito quando olha para a menina para chamá-la para si, sem chamar. Uma nuvem fria de orvalho escorre entre as palmas, separando-as por tênue limite. A menina corre, escorada na porta todavia, em ruas de abandono, com um leve mexer de corpo entre ir até à mãe e ficar onde está, presa. Uma mão estendida nos seus olhos aponta para a mãe como a dizer a um adulto, sem palavras, acuada, onde está a tesoura que ela tomou como brinquedo e largou onde ninguém conseguia achar. Zune em minha mente um som agudo, o de um transporte súbito para um lugar, um campo, numa manhã de fim de outono, manhã iluminada mas fria, onde numa peleja sem sentido vence o vento a disputa por cada centímetro da pele que se arrepia. Giro, giro e avisto as montanhas ao derredor, as árvores, as colinas ondulantes, as pastagens e os pássaros, muitos pássaros, alvoroçados bandos de espécies diferentes, todos voando e atualizando suas comunicações sobre o frio próximo do inverno. Não há casas, nem estradas, nem rios, apenas prados verdes, cercas velhas, árvores perdidas aqui e acolá. Alguém aparece e toma a menina que parecia uma estátua barroca em madeira sem pintura presa ao portal. Leva-a. Outra pessoa toma a mão de Maria Júlia da minha e planta nela, na umidade em que cultivamos pequenos e suaves momentos, a haste que não brotará, de uma flor de fogo, uma vela. A pessoa aperta aquela haste infértil nas mãos de Maria Júlia como se acreditasse, por costume de quem lida com lavoura, fixar futuras raízes ali nos vales e linhas daquelas mãos doces e ainda flexíveis, macias, cheias.

15 comentários:

Jacinta Dantas disse...

É...
alguém aparece e toma-lhe a mão. Alguém aparece para cumprir o ritual. E, nas mãos, tem-se a luz. A ela cabe a tarefa de alumiar o caminho.
Será que Maria Júlia fará a travessia?

Eita que nesses últimos capítulos eu mergulho, mergulho...

Beijo

Mai disse...

Um reencontro e uma emoção contida.
Um dos capítulos mais fortes e densos, ao mesmo tempo belo pela espera. Um beijo

paula barros disse...

Dauri,

Obrigada pela dica, estou em Venda Nova, chuva, trovões, relâmpagos, uma pousada na roça como eles chamam aqui, uma maravilha. Faltou a concertina rsrs.Por mim ficaria dias e dias...

um repeteco do abraço.

Maria Helena disse...

Lindo este bucolismo forte,vívido e cheio de uma melancolia que dói fundo.Cenas marcantes e de uma densidade tão profunda que arrepia...
Amei e senti cada palavra que marcou com fogo este capítulo maravilhoso.
Abraço

Eurico disse...

Uma flor de fogo... a Poesia traz seus rompantes à prosa. Aqui, ali, acolá, alhures, por todos os rincões do texto, arde a Poesia, a tua poesia, vela inextinguível...

Abraço fra/terno

Ilaine disse...

Ah, eu achei muito triste este capítulo. Triste e belo. Há uma espécie de desespero em cada palavra. Cada palavra, por si só, é banhada em poesia e conta, busca e procura... E o final, emociona e encanta. Maravilhoso!

Beijo

Dauri Batisti disse...

Agradeço ao Eurico do http://euliricoeu.blogspot.com/
que dirige palavras tão generosas a respeito dos meus escritos. Obrigado Eurico. Obrigado mesmo.

Eurico disse...

Não por isso, irmão. Não por isso!
Sou apenas um dos que admiram teu trabalho! Não por isso!

paula barros disse...

"Uma mão estendida nos seus olhos..."

"Alguém aparece e toma a menina que parecia uma estátua barroca em madeira sem pintura presa ao portal."

"....fixar futuras raízes ali nos vales e linhas daquelas mãos doces .."

Dauri, continuo a me impressionar com essa sua forma de escrever. É fantástica, é quase um quadro surreal.

abraço!

Sylvia Araujo disse...

Depois desse palavrório cheio de imagens invasivas - sem que eu tenha ao menos permitido que me invadissem assim, sem mais nem menos - preciso voltar e ler os outro 51 capítulos. Um por dia, talvez mais, se os outros resolverem me tirar o ar, assim como esse. O que é bem provável. rs

Boa de ler essapalavra tão cheia de recantos.

Meubeijopravocê

paula barros disse...

Dauri, fui sim a Pedra Azul. É lindo o local. Embora só subi um trecho, o outro faltou fôlego. Dormimos um dia em Domingos Martins e outro dia em Venda Nova. Muito bom está por ali, e querer ouvir e descobrir mais.

beijo

paula barros disse...

"giro e avisto as montanhas ao derredor, as árvores, as colinas ondulantes, as pastagens e os pássaros,"

Parecia o que eu via ao acordar em Domingos Martins e Venda Nova.

Encantador.

abraço

continuando assim... disse...

Desde já as minhas sinceras desculpas pelo facto de este comentário que deixo não ter relação com o post .

É apenas um
Convite

O livro "Continuando assim...", foi maltratado...

Resolvi por isso, e porque tanta gente não encontra o livro onde deveria estar (nas livrarias), recontar a história
Lá no …. Continuando assim…
www.continuandoassim.blogspot.com

Vamos em metade da história, o livro reescrito, não está igual (nem poderia!) ao que foi editado.
Obrigada a todos os que vão seguindo (pois só assim vale a pena).
Um obrigada especial a quem ainda não conhece e chega de novo

Uma reflexão em relação a todo este assunto entre livros, autores e editoras, e um conselho, se é que me é permitido:

--- quando vos pedirem dinheiro para editar as vossas palavras, simplesmente digam que não ---

um abraço
Teresa

Luis Eustáquio Soares disse...

salve, dauri, que sua prosa cheira café no sabor auditivo de campestres tempos perdidos, reescritos por vc, com a tinta-sangue das viscerais polifÔnicas vozes primaveramente outonais.
saudações
do amigo luis

Valdemiro Xavier disse...

Ao ler, sinto-me no local observando cada detalhe.

=D