05 março 2010

O último porto do rio
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Se o tempo continuar firme ainda amanhã subiremos o Santa Maria. Será nossa viagem de despedidas desta província como te falei. Agora invadem-me sensações de não ir, sensações de rir, rir muito, de ir-me embora sem subir o rio, me bastaria talvez escrever, e sei, poderia enviar a carta ao Porto do Rio apenas com o nome do destinatário, mesmo sem endereço, e chegaria com certeza ao autor daquelas cartas. Mas, não. Desfazem-se também as letras dos desejos de escrever ao tal João Francisco. É como se eu compreendesse que o que se sucede em fatos e acontecimentos definiu o que se deu, a leitura e o sonho. Agora sei, o que farei pelo rio acima será apenas um sobrevoo de pássaro que se despede de um prado, de um campo, de um sítio, rodando, rodando, sem tirar ainda do vento o rumo do proximo e último voo. Não me entenda aqui último voo como sinal de morte iminente, não, tudo na vida é último, o que se tem é somente a despedida, a despedida atualizada, permanente, inferno de prazer e castigo em que se diz adeus.

Tu me sabes muito bem, atravessei uns tempos de melodias e suaves arranjos com estas cartas que me chegaram, umas palavras que somei às minhas em tons de amor e coisas perdidas amalgamadas umas às outras por um leve toque de esperança. Mas agora vou, vou subir o rio já não pelas cartas, mas pelo que criei e que sei, se situa no intervalo entre o que vejo e o que já escorreu por entre os dedos.

Tuas flores, as calêndulas, tão perfeitas como nunca fizeste igual, não mais darei à senhora tedesca, minha vizinha, já não é hora de enlaçar fitas, mas antes é tarde e urge desatar e deixá-las soltas. Isto também se dá conosco florista. Esquecer-me-á tu quando a história do incêndio na casa do fogueteiro ontem à noite também for notícia esquecida e a porta que te serve nesta pequena oficina trouxer da rua outros indícios, pobres e insignificantes, de que a vida segue. As flores, tuas calêndulas, levarei comigo, bem embrulhadas e farei delas um ponto de encontro com alguém, com uma criança talvez, e dir-lhe-ei, quem sabe, com um doce e opaco sorriso, leve-as à sua mãe.

5 comentários:

Mai disse...

Já semeei um canteiro de calêndulas - são lindas, são pequenos girassóis e, acredite, como unguento, são cicatrizantes. Mas tudo, desde o dia que nasce, a seguir tem um dia a mais e um a menos. Quantos ainda por vir, não sabemos, mas tudo é fluxo no curso dos rios a descer ou subir. Parece que tudo no universo se contrai e se expande e as histórias, realmente se situam entre aquilo que vemos e o tempo que escorre por entre os dedos.
"...tudo na vida é último..."
É essa a peleja da vida é este
"O Último Porto do Rio".
Se tudo é despedida ai eu entendo a inesgotável melancolia daqueles que sentem a ânsia do viver.

Você é um escritor e tanto.
beijos, @migo.

Maria Helena disse...

Quantas lembranças lindas,quantos desejos por realizar...Tudo isso descrito de maneira firme, mas suave como um sonho azul balançado pelas águas do rio Santa Maria.
Abraço

paula barros disse...

"umas palavras que somei às minhas em tons de amor e coisas perdidas amalgamadas umas às outras por um leve toque de esperança"

E assim navegou o rio dos dias. Naveguei.

beijo

paula barros disse...

Dauri, vim sobrevoar seu texto, sentindo a poesia que toca as minhas asas da emoção.

Tem trechos tão lindos que o voo torna-se demorado.

beijo, bom sábado!

Ilaine disse...

Todo texto é lindo, mas o segundo parágrafo é demais. E depois, a fala sobre as flores, florista, calêndulas... " Levarei comigo..."
Beijo