19 janeiro 2010

O último porto do rio
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O que me escreve o tal? não sei se é hora de dizer-te, são palavras. Se quiseres, pode. Olha, deparei-me com uma senhora rica lá do Porto do Rio exatamente ali no cais dos Jesuítas. Fui comprar um peixe para fazer ao modo daqui, vermelho de urucum, o marido gosta e eu também, pois bem, além da brancura alvejada, gosto mesmo do vermelho, aquele vermelhão todo na panela, o peixe embebido, rubente de perfume, e me proporcionei com sua barcaça atracando no cais. Ela tem casa lá no Porto do Rio e uma cá que está montando, ali ao lado da minha, não colada, mas bem perto. Dizem que é de Hamburgo e que veio com o marido comerciante para enricar e depois voltar para a Europa. Não sei se volta, árvores também somos onde nos planta o destino. Foi apenas um cumprimento, como de outras vezes, ela e sua acompanhante não se permitem parar no cais para um pequeno colóquio, logo descem da barcaça e seguem, e os canoeiros apressados se vão com suas caixas no lombo como etíopes escravos de uma raínha tedesca. O que digo é que também eu poderia exibir-me assim, mas não o faço, acostumei-me nesta província e o gosto disso logo passa, da exibição, exibir-se, me explico, sempre para os mesmos olhos perde a graça, além de que, e ainda mais, não estanca a sangria, quando uma incompletude de vida é o que arrastamos em nossas vestes. Dizem que todos os móveis, utensílios e ornamentação vem da Europa. Um piano! Mas o que importa nesse dito que vou seguindo é que senti inveja dela, não do piano, também na sala onde leio as cartas está um colocado. Sabes tu por qual motivo veio a inveja?, poder subir e descer o rio e, bem provável, saber quem é o tal João, ai meu Deus!, Francisco, até o nome me.

Onde vou agora? a lugar nenhum, mas me vou, questo me piace un mondo andar pela cidade, acompanhada diga-se, esta menina não me é escrava, alforriei a todos, servem-me, mas são livres. Livres é um modo de falar, quem? livre? nem eu o sou. Nem me faças ir pelas tristezas por favor, esqueças isso, não toques onde não secou ainda o filele quente de vela derramada do castiçal, podes quebrá-lo. Vamos. Bem, as cartas chegam sempre. Ora ele se dirige com galanteios de quem promete amores, ou os declara, aqui é bom explicar, os homens são hábeis e bons na declarações, não nas promessas. Eles mentem e não mentem, não me entendes, eu sei. Haverás de acelerar teus pensamentos, o que falo não é página que se vire uma depois da outra, é corda de amarras para não se perder do porto. Barco tu tens o teu, se te importa algum entendimento ter, corre, a maré sobe e desce e nem percebes, e quando pensas em água na tua vida já tens uma pedra quente sobre os pés que te faz. Ele, sim, voltemos, muitas vezes, pelo que ajunto, manifesta-se inseguro e confuso. Deve ser um poeta, mas a mim, por que escolheu a mim para dizer estas coisas que são pedaços? Nem os meus eu ajunto, agora fico ansiosa pela próxima carta e trabalho como uma bordadeira, Deus me livre, não suporto agulha desde os anos de colégio interno, trabalho como uma bordadeira, ligando um pontinho depois do outro para tentar arranjar os arabescos dos sentidos na minha cabeça e entender estes modos e estes caminhos que ele me diz, estes amores que me vem aos lábios e...

Não, as cartas não. Volto outra hora, vou agora lá na rua dos piolhos levar umas coisas para pobre mãe com filho recém nascido a necessitar de caridade. Lá as casas tem o teto tão baixo que o sufoco da vida, o que sentes, lá parece refrigério. Há uma febre correndo por ai, andam dizendo que é a água. Cuidado com a fonte onde bebes, principalmente se vem do morro da fonte grande, podes... Bem, uma palavra pelo menos, digo, ele talvez se lance pelas matas subindo para as terras frias para trabalhar com os agrimessores que demarcam as novas colônias para os italianos. Se bem que não entendi se é um projeto de fato ou se é um sonho de ir simplesmente para se ir. Por enquanto é, completes tu, pois que as cartas também me incitam nesses impulsos de ir, ir. Que não exagero eu disse outro dia, mas me desdigo hoje, exagero sim, impossível não exagerar sendo o que sou infeliz, o infeliz exagera-se nas ilusões e nos olhares, olhamos mais e mais enxergamos vermelho o sangue que escorre, o coro na catedral ouvimos mais plangente, o curió na gaiola insuportável de dor. Aquieta-te no teu lugar, digo para mim, mas.

5 comentários:

Mai disse...

A 'insegurança', a inquietude, a profusão de palavras soltas, livres...O fluir se revela neste texto..."É um não querer, mas que bem querer" Um ritmo mais agitado.
beijo

tossan disse...

Bonito texto! Rico! Abraço

paula barros disse...

Dauri, passo o dia "fugindo" do trabalho para passear no texto.

Esse tem tantas frases que me chamaram a atenção, que mexe e remexe comigo.

Ontem, na madrugada, estava a pensar que deve ser muito gostoso criar personagens, dar vida e voz a eles. Eu precisaria de muitos personagens nesse momento.

Eu pretendo voltar...

beijo

Maria Helena disse...

Tudo lindo,maravilhoso,sonoro...mas as últimas linhas são de uma beleza tal que me fizeram perder o fôlego.
Abraço

Elcio Tuiribepi disse...

Olá Dauri,o nome de seu blog não poderia mesmo tersido outrosenão Essapalavra, que sejuntam formando frases e histórias, algumas reais, outras fictcias, tanto que se misturam em nosso imaginário...
Como bem disse a Paula, algumas frase chamam a atenção:

"Barco tu tens o teu, se te importa algum entendimento ter, corre, a maré sobe e desce e nem percebes, e quando pensas em água na tua vida já tens uma pedra quente sobre os pés que te faz"
Essa me chamou muito a atenção...

Sei que você está numa fase muito boa com o seu "Ultimo porto do rio", mas se quiser e puder participar, tenho certeza de que tens muitas histórias...fique a vontade...

Vamos a parte colada...

Mudando de assunto, eu agora te convido a participar do aniversário de três anos do Verseiro, no dia 26 de janeiro.
A idéia é que cada um que queira participar, faça uma postagem colocando uma foto sua quando criança ou adolescente junto a irmãos, primos ou amigos e conte alguma passagem de sua vida nessa época, alguma travessura, algum fato que marcou em sua memória de forma alegre, engraçada...rs
Vamos comemorar e sorrir juntos...
Conto com sua presença, mas fique a vontade quanto a fazer a postagem ou não ok...

“O passado não reconhece seu lugar
Está sempre presente”

Mário Quintana

Um abraço na alma...