15 janeiro 2010

O último porto do rio
25

Na lanterna arde trêmula a chama, círio longínquo de rezas e missas, e sob sua pequena luz cada um se ajeita como pode. Recosto-me sobre os muitos anos da parede de pedra. Recosto-me sobre o tempo, em ilusão, sentindo-o preso ali, na argamassa, entre as pedras, na liga de suor das mãos construtoras. Apoio-me sobre o tempo que calmamente foge, esvai-se, fragmentando o artefato humano no vento, no sol, na chuva, esperando, tempo escarnecedor, a hora em que tudo voltará ao pó, o dia do fim dos dias. Mas quem faz os dias é a luz do olho humano, o tempo sabe, não a do sol que brilha sempre, e ele, o tempo, tem que esperar preso naquelas paredes ainda prontas para o enfrentamento de muitos anos. A luta é desigual mas a ruína resiste e a firmeza daquelas paredes, mesmo no destroço, momentaneamente me alivia do cansaço. O mestre escolhe um lugar para se assentar de onde, suponho, se avistaria melhor o caminho para o cais, o rio no entanto não se avista. O canoeiro que fora à barcaça demora. O mestre se levanta e olha o que pode ver na escuridão, desprovido dos recursos para fazer-lhe frente. Impacienta-se. A chuva é um despenhadeiro de águas desobedientes. A impaciência e a preocupação forçam-nos uma atitude, descer ao cais para procurar o canoeiro, mas então ele se delineia em aproximação no escuro e chega com o querosene. Respiramos de alívio, não um respiro que vai ao fundo do pulmão, um sobressalto segura o fundo do peito em tensão por ver a expressão que ele traz. Antes que o mestre perguntasse alguma coisa ele faz seu relato sôfrego, nervoso, Tem algúem por aqui, vi um vulto me seguindo, e não é bicho, é gente. Todos desejaríamos convencê-lo de que não era nada, que ele se impressionara na escuridão, no entanto sua expressão facial dissuadia-nos de qualquer tentativa. Recolhemo-nos nas proteções que a parede nos oferece, o mestre joga qualquer coisa sobre a lanterna, ficamos quietos no escuro total, a chuva incessante canta sua arqueológica melodia. Ficamos alertas. Não trago comigo hoje uma arma de fogo, exceção no grupo, o propósito da minha viagem com Maria Júlia não me permitia portar uma arma. Um dos barqueiros, a mando do mestre sobe no que seria uma janela na altura do coro da igreja e lá se acocora como curuja. Nada avistamos. O mestre diz que vai verificar a Maria Luíza, o canoeiro que nos avisara da estranha presença não o deixa seguir em seu intento sozinho, propõe-se a descer com ele para verificar a barcaça. Aconselho ao mestre a continuarmos no nosso ponto por um tempo e observar. Não tenho certeza se ele me ouve. Fica pensativo, espera, não mais que cinco minutos, depois desce ao rio. Desce com dois canoeiros e logo retorna. A barcaça estava segura, as cargas todas amarradas e cobertas, ninguém, nada, fora visto. O rio já vai bem cheio, diz, a enchente é das grandes. Permanecemos quietos e agachados com a arma em punho, eu com um punhal, por um bom tempo. Sem baixar a guarda o mestre derrama o querosene sobre a madeira recolhida e faz crepitar pequena mas boa fogueira. A claridade se espalha pelo átrio iluminando diante de nós o que seria o altar-mor. A fogueira se avoluma e o local apresenta-se para a liturgia das curiosidades dos olhos, e vemos. Vemos passando pelo vão que seria a porta para a sacristia um vulto veloz como um moleque de senzala. O mestre dispara e a bala recocheteia nos fundos em algum tronco de árvore. Ouvimos um assovío, agudo, longo, invulgar. Com a arma engatilhada o mestre segue astucioso pelo átrio, outro canoeiro vai pelo lado esquerdo de quem olha para o altar, eu pelo direito. Ao fundo da ruína avistamos o pretume da noite, e os fachos de luz que atravessavam pelos vãos da ruína iluminam apenas árvores e árvores para onde uns bons tiros são disparados a esmo para efeito de espantar quem quer que fosse, bicho ou gente. Mesmo e apesar da tempestade despropositada em volume e barulhos os estampidos atravessam a floresta. O mestre percebe que o antigo presbitério também está protegido da chuva por uma espécie de tosca aboboda que não ruiu, e ali alguém um dia recolheu madeira, uma pilha abandonada de muitas estacas para cerca. Exatamente no local em frente ao que seria o altar ele amontoa uma boa quantidade de estacas secas, e o canoeiro, o primeiro a avistar o vulto, despeja boa porção de querosene sobre o monte e o mestre ateia fogo. As labaredas sobem para a cruz que não está lá, nem a Virgem Maria e a luz se esparrama para longe, depois as chamas retrocedem em tamanho e se mantém constantes. Retornando ele apaga a pequena fogueira e se agacha no seu canto. Ninguém precisa de alerta, cada um sabe o que deve fazer. A chuva prossegue primitiva no seu exagero de águas, ninguém dorme.

6 comentários:

Dauri Batisti disse...

Peço desculpa aos amigos que me acompanham no Último porto do rio pelo capítulo um pouco mais longo, mas a cena na ruína me exigiu seguir um pouquinho mais na extensão das linhas.

Valeu, Obrigado!

Maria Helena disse...

Estava ainda adormecida interiormente pelo capítulo de ontem, pois o mesmo encheu-me de uma certa inquitação ou melancolia,sei lá,e agora deparo-me com tanta ação, que aguçou minha curiosidade a tal ponto que fiquei com pena quando o capítulo terminou.
No altar-mor sempre há uma fogueira...
Abraço

paula barros disse...

Dauri, pela primeira vez fiquei ouvindo os videos, gostei muito do rapaz com a sanfona.

Teve uma música que me deu uma saudade não sei de quê ou de onde ou de quem. Deve ser uma nostalgia que carrego que também não é minha. rsrs

Gostei de ouvir as músicas, volto para ler.

abraço

Maria Helena disse...

Resolvi,por curiosidade,ler em voz alta alguns capítulos de 'O último porto do rio',e gostei do que ouvi.Os sons são agradáveis aos ouvidos e cada palavra soa de acordo com a conotação dada pelo autor .Foi uma experiência incrível.Gosto não só de ouvir mas também de sentir os sons pois aprecio a eufonia.
Parabéns.
Abraço.

Dauri Batisti disse...

Querida Maria Helena, professora de português admirável,

é uma satisfação receber suas contribuições.

Obrigado por também prestar atenção na sonoridade que tento dar aos meus textos.

Beijo

Luis Eustáquio Soares disse...

a chuva prossegue primitiva, querida dauri, assinemos logo o documento e deixemos o contrato social livre de nossas prisões aos documentos das posses.bela narrativa, como sempre
meuabraço,
luisdelamancha