(sigo com a nova série de poemetos.
O cenário é uma grande cozinha
onde uma criança recolhe seus sentimentos)
II
Ficávamos naquela penumbra santa
em que o altar ardia ainda mais
no retângulo da grande cozinha.
Me emudecia sem querer, olhava, olhava.
Nada. O mundo lá fora turvo, estranho.
Dentro de mim também um mundo
me inundava de águas frias, ventos.
Minha mãe onde estaria?
Eu precisava descer, ir ao córrego, tomar banho.
Mas não ia. Esperava primeiro o escuro vencer de vez
a hora triste, aquele círculo entre a felicidade e a saudade.
Era disso que eu sofria. Sofria de uma dor
que não doía em nenhuma outra hora do sol e da noite.
Eu era feliz em todas elas: nas que amanheciam,
nas que corriam passando pelo meio-dia. Pássaro
junto aos pássaros, vivo, livre; cavalo à tarde
solto em meio aos pastos, doce, agreste,
saudável; garapa no balde, transbordamento
de vida totalmente presente. Nem passado, nem futuro.
A mãe não existia. A não ser quando o dia chegava ao fim,
naquela hora. Era dela que eu sofria. O tempo ali,
logo antes do pôr do sol, logo depois do pôr do sol,
me adoecia de sua falta. Insuportável. Insuportável.
Onde ela estaria? Mãe! O dia se ia...
eu não sabia
...que a vida era assim.