15 setembro 2009

V

Difícil dizer o amor.
As palavras têm cortes afiados;
quando dizem, repartem
ossos, tendões, músculos.

As flores são ditas,
as orquídeas, os vasos,
os orquidários, mas não
as florestas, as fontes,
os montes e a neblina das cachoeiras.

Ah, se pudesse acontecer
um alargamento do tempo
no exato momento
do mergulho, entre
o jogar-se e o cair, talvez
eu enxergasse com o olhar de Deus.

Óleo que sou
derramado em filete espesso
na água, afundo
e retorno. O amor
é o que me pesa
e o que me faz subir.

11 comentários:

Blue disse...

Bela poesia. Parabéns.

Retribuindo visita e comentário.

Abraço

Memória de Elefante disse...

"o amor é o que me pesa..."
um abraço!

Tatiane Trajano disse...

E me é tão difícil falar o AMOR.

tossan® disse...

Há muitas definições diferentes para o amor, é confuso e todas tem um fundo de verdade.

PS: Desta vez você conseguiu comentar. Obrigado

Eurico disse...

Primeiro, eu fico pasmo:
Eis a poesia! Essa fruta que nasce do invisível, do intangívelm a reverberar cores e sabores lá no alto, bem alto, de uma árvore frondosa!

Depois, enlevado:
A viscosidade do tempo entre o jogar-se e o cair... cair como um filete (eu vejo, eu vejo dqui esse filete! Eu até me sinto filete... rs)

Afinal, medito:
E lembro de um certo Padre Teilhard de Chardin que dizia "tudo o que sobe, converge". O filete de óleo não afunda apenas. Retorna. Sobe. Converge.
Isso que nos faz convergir é o Amor!

Lindo, denso, profundo. Um poema que busca o olhar de Deus e encontra... Deus olha pelo amor. Deus é Amor!

Camilla Tebet disse...

Esse alargamento do tempo é o que estamos correndo atrás, não é? Enquanto vc faz poesia sobe e desce pelo peso do amor. Procurando alargar o tempo e a consciencia.
bom te ler

Mai disse...

É isso.
É esse o isso.
Poetas e não-oetas, únicos, diferentes e tão iguais, tanto quanto versamos o amor, o cortamos. E ao cortar, com palavras mal ditas, expomos as fibras, quebramos os ossos.
Não sei, Dauri,
será que por hábito ou por não nos apercebermos, vemos a vida pelo retrovisor, vão do tempo.

Sei lá, saí pensando.

um beijo.

Eurico disse...

Ainda meditando:

Não resisti à força desse poema e vim revisar a minha frase acima. O olhar de Deus é o Amor.
E, insisto, o Amor é Deus, pois nada há fora Dele, como já apregoava um sábio polidor de lentes, que de tanto polir lentes enxergava anos-luz de tão longe: Baruch Spinoza.

si disse...

salve, essaspalavras, poeta, que uma angústia estrangeira, que pode ser familiar, íntima, individual, o retorno do reprimido, que já não é/sendo, individual, posto que é ou faz parte da mundo. belo poema, poeta.
saudações,
luis de la mancha

Isaque Viana disse...

rapaz... Gostei ainda mais desse.
"O amor é o que me pesa e o que me faz subir"

Rabisco disse...

Pudesse um dia alguém ser capaz de definir o amor...
Metáforas, tantas metáforas que nos transbordam os sentimentos!
E no fundo, tantos se conseguem aproximar como é este caso!
O poema está lindo!

Abraço grande