26 agosto 2009

(aqui) faltam letras, incompletam-se nessas
ruas de versos bueiros e inseguros cruzamentos.

A rua molhada, o asfalto com olhos
de fogo, brilhantes nadas no chão,
fila interminável de volta pra casa.
Lá fora, fora do carro um olhar se vai
e se perde em pequenos pedaços
de sonhos, ânsias grandes por dentro,
alma, almas perdidas de um tempo
que se quer pra rir num bar, num café.
O que se quer, o que se quer, é, talvez,
ir sem sentir tanto, sem sinto de segurança,

sem multas, sem contas. Mesmo que só

por uns dias. Férias, feriados que passam

como o ar do bailado do beija-flor
nos jardins dos anos, distantes.
No fim de uma quarta-feira qualquer
a singularidade da vida no semáforo, parado,
sem ser, sem ser, sem ser
nada mais do que um a mais, isso, engolido.
No sinal vermelho ouvindo uma música
sem ouvir, ainda distante de casa,
peso, fardos, quadro pendido
na parede com manchas, mofo (...)

Pra dormir. Ai meu Deus. O remédio acabou.

7 comentários:

Ava disse...

Oi Dauri!

Sua passagem por lá foi tsunâmica...rs

Tão generoso em tuas palavras...

(aqui) fico pensado o que trituram nossos sonhos em pedaços miúdos...

O que faz nosso olhar vagar, tudo olhando nada vendo...

Sim, faltam palavras... porque há muito para se falar...


Beijos!

Germano Xavier disse...

Você é poeta, Dauri Jack, deixe disso. Não-poeta não, simplesmente. E mesmo quanto não usas do teu canto metalinguístico, você absorve o eu e canta o nosso. É a tua socialidade poética.

Você é poeta, camarada.
Sigamos...

Elcio Tuiribepi disse...

Poeta ou não, a poesia, o poema, as palavras vivem aqui...e como vivem...Um abraço na alma

Dauri Batisti disse...

Querido amigo Germano,

afirmo-me como não-poeta. Ainda que me digas assim, que sou, afirmo que não sou. Não preciso ser poeta para escrever o que escrevo, e o que escrevo não me faz poeta, de modo nenhum. Escrevo poemas como prova de que não sou poeta, e, mesmo não sendo, posso escrever. Escrevo como exercício lúdico cotidiano, paisagens vistas nas estradas dos dias.

Abraço.

Opuntia disse...

Só a sensibilidade de um poeta percebe a poesia que emana das almas perdidas na chuva do fim do dia. Vc pode ser não-poeta, mas tem alma de.

Mai disse...

Falta tanta coisa, Dauri...
Faltam letras, faltam músicas, faltam palavras e as vezes, falta lealdade, falta amor, falta o fôlego, o ar me falta.
Aprendi pouco sobre amar e sobre como usar as palavras sem machucar e sem me machucar e amar tanto dói quanto faz feliz.
E há lugares vazios e faltam letras e poemas são pequenas pontes.
E por isto eu escrevo.
Prá atravessar e seguir.
Desculpa, tô péssima hj.
Preciso de pontes.

paula barros disse...

Uma vez acho que disse aqui, ficava entre esperar uma nova série sua, e algumas eu gostava tanto que tinha dificuldade em me despedir.

Sinto começar uma nova série.

O que me embala nos seus escritos, é a inquietude que sinto, entre o grito preso, a vontade de ir, é o sonhar mas precisando pisar firme...e isso que sinto (não quer dizer que é o que você escreve) é que me faz voltar,ir, voltar.

Você diz muito quando escreve, e eu não consigo "pegar", e vou me perdendo dentro de mim.

Essa escrita que é um filme. Que é um quadro surrealista. Só para citar:"o asfalto com olhos de fogo"

(aqui paro, e escrevo para mim. rsrs É quando te roubo o que seria um comentário)

E vai escrevendo. rsrsr