03 julho 2009

Ah, o que me consterna...
não sei, não sei se digo,
se sei dizer...
apesar de estranho,
digo: é
no chão que se ondula em campinas,
terra arada para plantar milho,
ou capim,
ou feijão,
naquela pedra perdida,
ali,
jogada sem destino,
parada, parada,
com marcas de pancadas
do arado,
...é nela que me consterno.
Pedra sem nada,
sem história nenhuma,
sem valor, sem mão que a tome
para ser pedra onde se lava roupa,
pedra de esfregar sujeira
no riacho perto,
e a torne lisa. Pedra
que ninguem toma
pra calçar caminho
ou para decorar jardim.
Longe da casa que está
não vale a pena ser levada.
Pedra feia, pedra pedra,
bonita assim, fica,
a pedra abandonada. Pedra
parte coberta,
parte aberta para o meu olhar
que desce sobre a paisagem
e nela se esbarra... se empedra
de uma ternura descabida. A vida,
o céu se dobra no baque do olhar
na pedra, em luzes
da tarde. Luz amarela
que anuncia um vento fino,
soprador de arrepios,
quase medo, o destino. Pedra.

12 comentários:

Eurico disse...

DA pedra medra a ternura, descabida ternura. Esse estranhamento diante do ser da pedra, esse encontro insólito com a dureza, com a patência do ser da pedra, toda a pedra, mesmo a parte que de nós se esconde, nos abrem a visão, nos ampliam a partir de nós, nos fundindo ao mundo exterior. Essa ternura, que é da pedra e é nossa, nos une às coisas mudas e nos salva, a elas e a nós.

Abraçamigo.

Mai disse...

e tudo cabe no devir das coisas, dos homens, dos animais e tudo é descabido no ser de tudo-ser e nada-ser mas gosto de ser pedra e não-ser-pedra quando sou mole de natureza emulsionada...

Mas sou pedra e sou eu e não sou e gosto de pedras e tenho em mim pedras e os minerais estão aqui e eu vou sendo...

Sabe, eu fui lendo a cantilena dessas tuas palavras e me veio na melodia que ia sendoe se fazendo ser, um homem do campo sentado numa pedra e falando dessa vida que é dura e do coração empedernido dos homens.

Lindo, muito lindo!
Beijo,

Opuntia disse...

No meio do poema tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do poema... e da pedra se faz arte, artifício de grandes poetas.

Vivian disse...

...bom dia, mago das palavras!

encantada deixo beijos...

paula barros disse...

E sendo pedra, ela nunca pensou que teria uma olhar assim, de consternação, de ternura, que a visse e escrevesse sobre ela.


E sendo a vida pedra? E sendo a alma pedra? Talvez seja assim, sempre tem um olhar que vê brilho na pedra sentida fosca, um raio de sol que desvenda a nuvem pesada...sempre há vida, as vezes precisa só de um olhar que veja com a alma.

beijo

Maria Helena disse...

A pedra esquecida,solitária no meio do nada tornou-se linda,observada,desejada quando você a poetizou.Virou diamante!
Simplesmente magnífico!
Abraços de Maria Helena

John Doe disse...

Quase biblico hehehe, muito bom meu amigo Dauri, sinto falta do tempo que antes dispunha para ler-te e para escrever nas linhas de meu caderno... mas ainda traço voôs por estes ares sempre que o vento soprar forte nessas direções...

Michel Alberton disse...

muito bom, POEMAS LÍRICOS
fazem muito o meu estilo
Você soube como descrever uma palavra em seus sentidos, e amplos sentidos,muito bom!!!

Elcio Tuiribepi disse...

Olá Dauri, um compasso...um passo, um pensamento, e um outro lugar...deu para viajar...ficou muito bonito...Um abraço na alma

Jacinta Dantas disse...

Ando refletindo sobre o sentido do olhar - o ver, o enxergar, literalmente vendo -
...
empedrar-se de ternura,
tatear-se em pedra
enrochear-se de luz
vida que segue
Sinto amarelo.

Beijo

Improvisos de um louco disse...

e o silêncio fala...

[ rod ] disse...

Tem coisas que não se diz, mas que reverbera em tom maior... coisas que por si só enumeram etapas de um vida desgarrada ou, por certo, bem rotineira.

Lê-lo é ir sempre além.

Abçs meu caro e vim te convidar.





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