13 maio 2009

4
1Por causa da tristeza deixei de ver
o riacho, deixei de me refazer
na sua forte ventania saciadora.
2O shofar será tocado, ouça.
3Há um buraco bem no meio do corpo
de cada peregrino, acima do umbigo.
3Medidas com o número fi
encontram ali o desaguadoro
do absolutamente maravilhoso.

4Quando me aproximo dele,
não sei dizer o que o coração me traz,
se é sangue ou se são sílabas.
5Há um gosto férreo. Ele fala
e sinto na minha boca o que ele fala.
6Uma palavra completa escorrega
na saliva. E outra, e outra. Vou
engolindo tudo. 7É dele
o pensamento: o amor
tem que descer para além do fundo
do estômago.

8Na encruzilhada entre o ceu e o mar,
no mel ou na pedra que me oferecem,
tenho dúvidas onde vou encontrar
o que ele chama de Reino. 9Entre as casas,
as de dentro e as de fora, não sei ainda
aonde ele mora. 10Há uma festa lá,
por isso ando calado, pois que daqui
desejo ouvir a música que se toca lá.
O vinho é o melhor, já me falaram.

9 comentários:

paula barros disse...

A tristeza nos impede de ver muito além de nós mesmos. De ver as muitas belezas.
Talvez seja porque a tristeza nos faz ficar rodopiando num buraco qualquer da alma, da mente.

Dauri, adorei essa do burado e da medida com o número fi, você tem cada ideia.

beijo

paula barros disse...

"Quando me aproximo dele,
não sei dizer o que o coração me traz,
se é sangue ou se são sílabas."

Faço suas minhas palavras, é isso que sinto e que me faz escrever a série andarilha.

O sangue ferve, borbulha, e derrama-se palavras, e frases.

Só que as pessoas sempre leem o que escrevo como se fosse uma paixão entre um homem e uma mulher.

Pelo que leio aqui deve ser bem interessante o que sentes. Eu gosto.

abraços

Dauri Batisti disse...

Pode parecer estranho, Paula, mas especialmente aqui no "Evangelho apócrifo de Cafarnaum" é o personagem que fala. Eu, por assim dizer, não "sinto", mas impresto meu patrimônio de sentimentos para que o personagem fale.

Obrigado pelos comentários.

Beijo.

paula barros disse...

Dauri

Gostaria de saber criar personagens. Ainda não sei.

A vontade de estar lendo um livro só aumenta, sabendo que é um persongem.

beijo.

Eurico disse...

Uma força indscritível emana desse evangelho. Tb não sei onde ele mora, mas a festa é ruidos e me atrai. As imagens do que li outrora e as tuas de agora me confundem. Que coisa estranha é a Poesia!

Jorge Elias disse...

Aproveito minha visita para concordar sobre as "receitas para o próximo milênio" propostas por Calvino.
O primeiro livro que lí, e que foi muito impactante para mim foram "As cidades invisiveis". Fiquei apaixonado pela riqueza em textos tão exíguos.
Quanto ao evangelho, ele trás tudo aquilo que tenho acostumado ler aquí: poemas cada vez mais densos e ricos.

Forte abraço

©tossan disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
©tossan disse...

Também não sei muito como deveria, mas, já ouvi dizer que o vinho lá é muito bom sim! Poesia linda para refletir muito, ler duas ou mais vezes. Abraço

Rico B. disse...

Dauri, por causa da tristeza eu me deixei levar pelo balanço do nada, pelo sentimento do tudo e pela frustração de todos. me sinto comum e sem poesia hoje. Me sinto frio, meio apagado da historia dos dias.