26 janeiro 2009

(quinto e incongruente poemeto da série umas coisas
jogarão luz nas outras. Parece uma idolatria egoísta)

Poemas são coisas que não necessitamos ler,
mas escrever, escrever, ah, é urgente.
Escrever, escrever poemas, cartas, coisas.
Escrever transforma o hálito,
a voz, a expiração em pedra, em erva, em sol.
Escrever se escreve para que o mundo continue
no seu eixo. Tem que se escrever
seja na parede de cavernas, seja na tela.
Escreve-se para que o mundo se aguente
na escuridão do universo. A luz das estrelas
é pouca. Cada letra brilha mais.
Ler se lê para o prazer, para o deleite
ou pela obrigação. Com sentimentos, portanto.
Escrever se escreve para criar o mundo,
para mantê-lo por um tempo a mais
girando, girando, girando.
(E a palavra se fez coisa)
Escrever qualquer coisa,
nem que seja só o próprio nome,
é condição sine qua non
para transformar Deus em coisa,
e transubstanciar coisas em Deus.
Isto que acabas de ler é só uma lasca de pedra
que arranquei da voz enquanto escrevia.
Escrevendo pensei em esculpir para ti um sorriso,
mas sorriso não se esculpe. Só tenho lascas
espalhadas por ai. Talvez eu calce um caminho.
Perdão. Parece uma idolatria egoísta
mas é uma afirmação da encarnação,
ou coisificação, se quiseres.

10 comentários:

Mai disse...

Esses teus 'issos' é algo além disso...
E umas coisas jogam luz à outras.
Os absurdos do mundo são escritos e descritos em palavras.
São coisas que estão nas cavernas mais escuras.
A palavra escrita, como uma luz, possibilita que o 'negro' da caverna se ilumine.
A palavra escrita como uma luz ao entendimento, poderia mostrar às claras, o escuro que não é pecado e que mesmo sendo o 'absurdo' inumano no humano, QUE TUDO NO ABSURDO É HUMANO...
E que precisamos viver de qualquer modo, mesmo que doa, mesmo em angústias, mesmo no abismo, suportando os absurdos do humano, sem desistências.
Sentir medo de ver, também é humano.
Mas sentir medo também pode preservar a vida.
E é ai que entra esse teu maravilhoso texto.
Mesmo que existam coisas escuras e obscuras no humano, é preciso viver.
É preciso ser tolerante ao inumano do humano...
É preciso.
É preciso
É preciso viver e ser tolerante e suportar todas as dores desse viver...
Vivendo...seguindo....escrevendo... e dando luz e vendo que nada é tão absurdo que valha a pena desistir de viver
porque nada que façamos é vergonhoso ou vil porque tudo está ai.
São coisas
são palavras
é linguagem
que se constituiu como negra, tosca ou condenável, a partir da própria linguagem.
Conter, cada um sabe o que conter.
Mas nada vale a pena deixar de viver.

Beijos, querido.
Obrigada mais uma vez.
Muito carinho da amiga.

Mésmero disse...

Parece uma idolatria egoísta. rs

Jade disse...

Escrever é para alguns uma necessidade intensa, primordial...comos e a nossa existencia se tornasse dependente do que podemos ou não escrever...
Escrever ...
Também eu preciso de escrever...às vezrs simplesmnete para poder sorrir de novo

Tentativas Poemáticas disse...

Caro amigo Dauri
Afastado por motivos de saúde mas felizmente já recuperado, ando agora a visitar os blogues das pessoas que mais estimo.
Deixo-lhe um forte abraço.
António

Mai disse...

Dauri,

mas conseguistes esculpir um sorriso sem ser lascas apenas...
Meu sorriso...
Novamente conseguistes...
Emocionei-me novamente.
E eu sei foram teus 'issos' e isto para mim não foi egoísmo, foi dádiva, foi entrega...
se meia mão se pedra ou espírito,
foi 'isso' teus 'issos'...
E também estamos mesmo a sós para carregarmos as pedras que calçariam os caminhos e sustentariam os pés na caminhada da existência...
Sei lá! Sei lá!

Mas deu vontade de voltar e deixar mais 'issos'...
...

paula barros disse...

Pra mim os seus "issos", "vazios", "coisas", palavras, poemas, são palavras que tem vidas, tem poesia. Sintonia comigo. É uma continuação do caminho, do entrelace de palavras, da rede que nos liga, da vida que faz a vida girar.

Ao se ler o pensamento do outro, semeado em lascas ou não, podemos chorar ou sorrir, mas podemos nos reconstruir. Ouvir a voz adormecida.

abraços

Vivian disse...

...escrever é fácil!

dar vida ao que se escreve,
é que são elas.

e você é mestre nesta arte!

que lindo isso!

um beijo, poeta!

®tossan disse...

Para homanagear a tua poesia. Abraço

O rio

Uma gota de chuva
A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra.
Através de antigos
Sedimentos, rochas
Ignoradas, ouro
Carvão, ferro e mármore
Um fio cristalino
Distante milênios
Partiu fragilmente
Sequioso de espaço
Em busca de luz.
Um rio nasceu.
V. de Moraes

Sarah Vervloet. disse...

escrever com intenção de dar vida a coisas, a "issos" e "aquilos".

escrevemos com desespero de afirmação... que não deixa de ser egoísta.

abraço.

o Cronista disse...

ótimo,
sim escrever, sempre necessario...
se bem que mtas vezes num poe o mundo no eixo, tira ele dele.

:)