04 janeiro 2009

deslivrado. Viver de poesia, se largar na rede, brincar,
sem inspiração, saber-se apalavrado de amor e de futuros.

A xícara verde por fora, laranja por dentro
está trincada. Uma trinca longa,
que logo se divide em duas, uma raiva.
O café, preto universo onde as estrelas morreram,
ainda se toma na mesma xícara,
a trinca não a inutiliza. O café não deixa marcas,
borras de nada, viver cada dia é o que salva.

Palestinos e israelenses em suas dores, e medos.
Não escrevo livros, escrevo páginas rasgadas,

sou eu mesmo, o outro, quem fala.
Os outros personagens se foram para o verão,
de folga. Escrevo aqui ao seu lado, em casa, sou seu vizinho.
Os etíopes longe morrem e ninguém sabe.
Lá não tem petróleo? Talvez a flor, aquela orquídea
seja linda demais pra ficar na mesa.
A cor das pétalas escorregará, sangue fugidio,
para fazer-se bandeira de nada. Paz é grito.

Bom ano, bom princípio, que sequência seja sem trema.
Quando penso em poesia, penso em leveza,

mas também penso em espadas, são doideiras,
espadas desembainhadas, prontas para cortar o ar,
um coração, talvez, o meu. Improvável. Fazer um mundo.
Enquanto entra o ano sangue escorre. Corre, atende,
o telefone não está vibrando, só toca,
e bem alto, uma música deprimente; está quebrado.

Caneta de tinta seca só escreve versos rasgando a folha.
Acordei. Acordar tem coração. A pressão sobe quando se acorda.

Saber-se apalavrado de amor e de futuros. Deslivrado.
Viver de poesia, se largar na rede, brincar, sem inspiração,

6 comentários:

Márcio Ahimsa disse...

Ei, Dauri,

viver largado numa rede e assistir ao espetáculo das estrelas é um sonho antigo, que ainda perdura em mim e viver, como tu dizes, de poesia sem nenhuma inspiração... Vamos deixar as guerras de lado e observar as crianças balançando seus sonhos num parque de diversões. O ano entra, os sonhos não podem ficar do lado de fora.

Abraços.

Mai disse...

É, Dauri,
somente com a mente despojada de formatos e parâmetros...
"Deslivrada" de qualquer formatação, consigo sentir...
Apenas sentir.
Porque há coisas que não são para entender, embora eu entenda...

Em princípio, tudo é dual mesmo.
As metades da laranja e as duas cores da xícara - verde e laranja.
O dentro e o fora, da própria xícara, que contém o café...
Como dizes: "uma trinca"
O que trinca, uma trinca? Trinca, parte em duas ou trinca que significa tres?
Nem sei se quem morre ou quem se salva, ama ou sente raiva...
Me saberias dizer, ou não dizer?
Palestinos e Israelenses - Seriam UM, ou mesmo DOIS, que se matam por amor à terra e aos ideais?
Também não sei.
Hoje li, impressionada que, 'amor é violência'.
Embora ontem, antes de escrever algo sobre o amor, tivesse me lembrado da guerra, em Gaza, jamais havia pensado assim...
E agora penso e desde que li aquilo, penso...Como é que é mesmo esta face do amor que viola, violenta, mata?

Sabe, Dauri, esses paradoxos me encantam, mesmo sendo faca que fura minh'alma, porque me fazem pensar e querer ser melhor e amar, cada vez mais, o quanto eu puder, enquanto tempo, eu tiver para amar e amar...
Também me sinto 'deslivrada' de qualquer bocado de muitos e nadas...
E esta poesia, esses teus versos, estão repletos dos nossos nadas,e os tudos rasgados...
É muito bom ler isto, é muito bom, teu grito...
Ou gritas o grito que gritam agora, Palestinos e Israelenses que correm, com medo, na faixa de Gaza?
Quem é que, agora, está deslivrado de esperança e de inspiração?
Palestinos e Israelenses, ou tu e eu?
Sei lá, Dauri, ...viajei, outra vez, balançando-me em minhas redes neuronais e, nesta rede através da qual, estou 'linkada' a ti e à tantos...
Em tudo há um nada e há sempre duas partes, ou múltiplas?

Estamos todos deslivrados de um futuro?

Beijo.

FERNANDA & POEMAS disse...

Olá querido Dauri, belíssima poesia... Palavras escritas de verdades como punhos!...
Como não gostas de rimas, recomendo-te uma visitinha ao PENSAMENTOS-FERNANDA... Aceitas???
Um grande abraço de carinho e ternura,
Fernandinha

Cosmunicando disse...

é perfeito isso, Dauri... um universo cabe aí dentro.
beijos

Mai disse...

Dauri, eu volto tão somente porque tuas palavras ficaram 'martelando-me' o juízo...

E vim ler um jornal e, ironia... noticiavam que:
'Israel divide Gaza em dois; 500 já morreram...'

São mesmo estrelas que morreram..
Isto é mesmo uma trinca...

Eu fico é sem palavras...
Mas as palavraas, as tuas, 'inda estão aqui, martelando o meu juizo.

Beijo.

John Doe disse...

Perfeito, queria ei tê-lo escrito, vejo, o real nadando em linhas surreais dentro de teus versos, gosto de pensar que em partes mesmo que por segundos apenas entendo o que dizes...