05 dezembro 2008

Passos no jardim
(iniciando uma nova série: ASPECTUS)

As passadas
e seus ruídos selvagens
no jardim
semearam respingos
espinhos e cardos.
Palavras espadas
labaredas cortantes
traços, retraços, cortes.
A dor de cada um, funda, doía mais que duas
e não havia como não doer.
O que se erguia entre
não era uma distância,
era uma enevoada lonjura.
Longe, longe, longe, lá onde
nem ouvido de mãe
é capaz de ouvir o chamado.
O entre com o tempo ficou tão grande
que passou a ser inexistente
pois que não havia mais ninguém
nem de um lado, nem de outro.
Uns astros do céu
poderiam se conjugar
como verbo de explicação.
Por que tudo acabou assim?
Um amor tão bonito!
No mundo inicial
no tempo dos olhares
só o amor se movimentava no jardim
com passos leves
com sopro de rosas
em pelos eriçados.

8 comentários:

Jo Bittencourt disse...

Muito bom, me troxe à memória um trecho de Burnt Norton de T. S. Eliot.

Esse arrepio do final aponta uma sensação de brisa morna, rs vai entender...

Dauri, beijo!

Eurico disse...

Começo a acompanhar os ASPECTUS, com a mesma curiosidade dos outros. Vc consegue prender nossa atenção. Daqui um pouco a Mai aparece tb. Somos teus seguidores fiéis.

Rosemeri Sirnes disse...

Fui me distrair e já estou desatualizada. Essas são as horas em que me pergunto "onde é que eu estava que eu não vi?". Vim para um aceno, volto amanhã, prometo deixar todas as minhas considerações.Tenho certeza que aí vem uma seqüência de poemas lindos. Adorei a analogia "lá longe onde nem ouvido de mãe é capaz de ouvir o chamado." é vero.

Beijos

paula barros disse...

Olá,
Obrigada pela visita, e aqui estou, não só foi uma visita, um presente.

Voltarei para ler com calma, e com a voz sussurante como você propõe.

Estou entre afazeres domésticos, arrumando casa, meus escritos, minha mente. Com certeza você entende.

Por coincidência (?) o que escrevi hoje foi para um amigo virtual do Espírito Santo.

Voltarei com calma.

abraço

Mai disse...

Então, cheguei com 12 horas de atraso.
E de novo terei que pensar sobre este fundo, lá, bem fundo...
Preciso pensar, depois voltar.
Tu me atordoas demasiado.

Te gosto, muito.
E depois, volto... Não creio no que leio.

És um absurdo!

Vieira Calado disse...

Um poema muito bem escrito, esbelto, levezinho.

Gostei.

E aproveito para agradecer os seus votos em relação ao meu novo livro.

Um abraço.

Sandra Leite disse...

Dauri,

Meus dias estavam tristes até para a poesia. Voltei hoje e te encontro. Mais uma vez, espetacular.

"No mundo inicial
no tempo dos olhares
só o amor se movimentava no jardim
com passos leves
com sopro de rosas
em pelos eriçados."

Mas há dor. E para a dor não há limite. Assim como para o prazer. Hoje o prazer venceu. A poesia, a arte. O amor!

Significativa foi essa poesia pra mim!

beijos

Oliver Pickwick disse...

Rapaz, empreendeu um ritmo de hard rock neste poema. De todos os ingredientes da poesia, considero este o mais difícil. Parabéns!
Um abraço!