01 dezembro 2008

Na calçada

– fico aqui na calçada,
me basto com olhos
o dia inteiro, sem amor,
sem ódio. Fico aqui.
Qualquer dia haverá
de ser diferente.
Perguntarão,
onde está a velha
que aqui vendia balas?
Dirão: morreu. Fico aqui.
Vendo balas, bombons,
paçocas, jujubas. Nada,
é pouco lucro, mas afinal,
de besteiras vive um pobre,
o que vende, o que compra.
O ouro em mim é o que penso,
e em tu também,
mesmo que tenhas mais,
bem mais. Tardes claras, a vida,
manhãs nubladas, qualquer
tempo é um sopro. Já foi dito.
Interroga-me. Teu silêncio
me incomoda. Basta-me
o que sinto. Áspera é a pedra
onde apoio os meus pés.

14 comentários:

Mai disse...

Oi, Dauri.

Novamente, um diálogo das ruas, que emudece qualquer leitor que, atento às palavras, descobre um igual, em uma vida diferente...

"...o ouro para mim é o que penso... teu silêncio me incomoda. Basta-me o que sinto...Áspera é a pedra onde apoio os meus pés..."


Quantas vezes já dissemos coisas semelhantes?
Ambulante é esta vida...

Muito carinho e admiração.

Abraços, sempre.

Jo Bittencourt disse...

Apoia-se em ásperas esperas e o silêncio se acomoda.

Saliente seu foco em relação ao modo "respostas às perguntas", constrói a cena de maneira peculiar.

Beijo, Dauri!

Rosemeri Sirnes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rosemeri Sirnes disse...

Me basto em elogios toda vez que venho aqui.Vejo a velha. Vejo, mas não a enxergo assim como todos os passantes que passam fugindo desse sopro de tempo.Compreendo a solidão diante dos passos, das buzinas, das vozes, das confusões,compreendo a sua exclusão.

Grandioso!
Beijos

Octavio Roggiero Neto disse...

nossa, Dauri, você não sabe como gosto dos poemas que se debruçam sobre o cotidiano das ruas, sobre as cenas que todos vêem, mas nem todos percebem. mas o que mais gostei desses versos foi o você escrever pela voz da velha. que sensibilidade, que lindo mesmo! de todos os que li seus, "na calçada" está entre os preferidos!

acho que sob o mesmo espírito escrevi outrora o flash back II: http://primiciaspoeticas.blogspot.com/2006_05_01_archive.html

meu amigo, quanto aos projetos poéticos, não os tenho por momento, mas pretendo a partir do final do ano que vem ser mais participativo. por enquanto, tenho escrito minhas trovas e nesse exercício me agrado.

gostaria muito de participar de uma antologia da qual você também fizesse parte! já disse isso, e repito!

você é sempre transbordante!

um abraço daqueles que se dá em irmão!

[ rod ] disse...

Basta mesmo as horas para sentir-se vivo. Basta o chão que futilmente pisamos... para ter certeza da dureza fria da crua apatia.

Grande abç e obrigado pela visita ao dogMas.





Novo Dogma:
tO be...


dogMas...
dos atos, fatos e mitos...

http://do-gmas.blogspot.com/

ex-controlador de tráfego aéreo disse...

Oi Dauri!

Gosto dos teus poemas.

Há neles um cotidiano que busca a interlocução com o leitor. Pelo menos eu vejo assim, nas imagens.

Um abraço!!!

Elcio Tuiribepi disse...

Este é o nosso Brasil de causas tão urgentes e tão frequentes em nosso dia-a-dia...tocante...abraços

Artista Maldito disse...

Olá Caro Dauri

Venho desejar-lhe uma quadra natalícia muito feliz. Também cá em Portugal se vê esta mesma miséria nas ruas. E agora que está tanto frio e frio de neve. Venho numa corrida, tentando ir a todos os amigos, é impossível estar no computador, as mãos ficam em gelo.

Um beijo com carinho,
Isabel

KÁTIA CORRÊA DE CARLI disse...

Querido Dauri
Desculpe a ausência prolongada... primeiro andei cinza, que nem os dias; depois entrei numa máquina de lavar, tamanho o turbilhão!
Mas já coloquei a leitura em dia...
Amei o poema (sim, é poema da melhor qualidade, versos livres!) da sombrinhaamarela com flores azuis, lembrou-me de uma jovem pedinte do centro da cidade. Comoveu-me. Aliás, todos provocaram esse sentimento... coisa de poeta, tomar para si a dor alheia.
beijo e paz

PreDatado disse...

Enquanto observamos, na calçada, refectimos. Às vezes só no que observamos, outras complementamos.
Gostei de seus versos.

João da Silva disse...

Que maravilha, Dauri! Uma certa prostração de Álvaro de Campos, com um quê de reflexão shopenhaueriana, e eis aí mais uma poesia filosófica dessas que aprendi a adorar.
Abraço sincero do João, seu admirador

Flávia disse...

A vida passa nessa calçada, como um transeunte que não se sabe ao certo para onde vai...

Belo teu poema.

Beijos, moço.

JOICE WORM disse...

Deixo um beijo
A este poeta que
Um dia conheci, tão
Romântico e
Inteligente.

Muac!