03 dezembro 2008

Entre a pluma e a pedra

– mãos coroadas por anéis
escondem mares, muitos mares,
amares, amores, anseios de amar,
noamormorar... Desfaças tu o nó
e enlaces a fita do teu jeito.
Vontades? tu insistes nestas perguntas.
Sim, claro, vulcânicas.
Foi arrebatada para o céu a crença
que me fazia pensar quando menino
que tudo seria fácil. A vida,
a trinca sempre deixa
a água escorrer, e o peso dos passos
sempre marca os rastros que ficam.
Os insondáveis mistérios dos desejos
se dão em claras mostras, trajetos,
trejeitos que não têm ensaio.
Torna-se um líquido, a vida,
um desaguadouro que logra olhares,
piadas e humilhações. Mas fico assim,
como tu vês, lindo vestido,
atravessado, travessia que faço,
para ser outra,
a mesma pessoa,
frágil e forte no entremeio
da timidez e do deslumbre,
da coragem e da agonia.
Sim, sim, sem drama,
é preciso ler a própria sina
como se alheia fosse,
e é aí,
tu também podes dizer,
no fugaz espaço entre a pluma e a pedra
que tu te atreves a ser feliz.

11 comentários:

Mai disse...

Ei, Dauri...
É porque não me podes ver, para saberes do aguaceiro em que estou. Se algum dia eu pudesse musicar um poema para mim, seria este.
Eu não sei o que te dá....
Dio mio!
Ou estou sensível demasiado, ou a carga de emoção com que escreves estes poemas, eu sinto.
Eu, (não minto...) levei muitos tapas na infância para não mentir.
E aprendi, (a duras penas) que minha vida seria verdade.
Isto que escreves, pode ser linguagem, licença poética, exercício lírico, o que queiras ser.
Mas, para mim, isto é a vida que corre...
Isto é Drummond revisitado.
Drummond via as fendas, vês as "trincas" por as águas escoam.

Adjetivos?
Nem sei...
Dói-me o peito. É lindo. Muito lindo.
Te aplaudo, de pé!

Poeta-lindo.

Carinho, muito e sempre.

Grata pela beleza dos teus versos.

Thiago... disse...

uaaau, Dauri eu fiquei sem palavras. :x

Tentativas Poemáticas disse...

Amigo Poeta Dauri
Vou tentar atrever-me. Magnífico este seu texto poético. Como já nos habituou.
Obrigado pela visita.
Um grande abraço.
António

Eurico disse...

"Queria encontrar outro nome para "isso" que chamo poemas, mas não encontrando, uso poemas mesmo".
*
Houve um tempo em que me angustiei na lida com a palavra. Até mesmo com os rótulos em que me queriam encaixilhar. Essa necessidade de outro nome para a arte que produzes tem a ver com o fato de que és um Eu original e único. E um estilo é algo solitário e enraizado nesse eu-profundo. Assim, a tua obra de arte, ao exsurgir, instaura a sua própria poética. Os nomes...ah, os nomes...
***
"Na verdade mais do que uma palavra, queria encontrar uma voz. Quem sabe a minha".
*
Taí, nós de cá de fora, os teus leitores, já ouvimos tua voz, que reverbera em nossas almas, com um timbre teu e únicamente teu. Se há nela Rosa, Pessoa, sei lá mais quem, existem triturados, liquidificados em ti. A voz que ouvimos é Tua, Poeta.

tossan disse...

Dauri, hoje tá difícil de comentar, apenas te digo uma coisa tem que viver e sentir para escrever do teu jeito, com a alma além da técnica. Profundo! Abraço

Cosmunicando disse...

e todos disseram o que eu poderia dizer sobre esse texto, Dauri. É profundo, tocante, de uma intensidade que mexe com o indizível na gente.
Lindo mesmo.
bjos

Márcio Ahimsa disse...

Nesses entremeios onde mora o lapso da vida, com qualquer coisa de irreverência, de recolhimento, a unidade mais tenaz se faz presente. Buscai, ó poeta, as pedras do teu caminho, cercai-te de sonhos e mergulhas-te fundo num canteiro de virtuosos versos: o embate entre a força da palavra e a força do sentimento é a receita de teu sucesso. Pedregulhos são-nos necessários para que os calos nos instiguem a levantar o pé. Daí, como tu disses, "é no fugaz espaço entre a pluma e a pedra que tu te atreves a ser feliz".

Abraços, meu caro.

Dauri Batisti disse...

Amigos, obrigado pelos comentários. Muito sutilmente quis fazer deste poemas da série "respiros de rua" a fala do travesti, um dos tantos personagens das nossas ruas. Optei mesmo por uma fala que pode ser a fala de qualquer pessoa, mas relendo você perceberá o persongem nas entrelinhas.

Um abraço.

Elcio Tuiribepi disse...

ENTRELINHAS...NOME DE UM POEMA MEU...RSSS
DAURI, FAÇO CORO COM O PESSOAL E ATREVO A DIZER QUE É UM DOS SEUS QUE MAIS GOSTEI DENTRE OS QUE JÁ LI...DESTACO ESTE TRECHO...

no fugaz espaço entre a pluma e a pedra
que tu te atreves a ser feliz.

Esse trecho não é apenas de ou para um travesti...torna-se genérico...show de bola amigo...um abraço

Gabriela .-. disse...

Lindo! Maravilhoso!
Não sei mesmo o que dizer.

Germano Xavier disse...

Dauri, meu caro, agradeço pela visita, ontem, lá no Clube de Carteado.

Bom ter gente boa como você iluminando meu espaço que é nosso. Desejo uma continuidade feita de uma amizade em letras e versos.

Continuemos...

Germano Xavier