24 novembro 2008

Direi ainda

...é o porvindouro que segue na planície,
o tempo,
aquele que ainda será atrasado
quando eu passar afobado.
Ah, gosto dessas andanças por aqui
pra me ver, quem sabe, subsistindo na linha
do futuro, ou do horizonte,
como uma faísca no céu.
Penso e repenso,
e olho e recoloco o olho em outro ponto,
assunto e reassunto por todos os lados,
não cedo, mesmo se não encontro o que nem sei.
Só ele, o tempo todo, mudo,
me comprimindo entre o passado e futuro,
eu nesse meio, nesse quente,
nesse frio, nesse peso, nesse denso chumbo.
Talvez a planície me permita em 360 graus
a visão do campo no qual fui colocado
para abrir a porta do vento, a palavra,
e brincar com a força do mundo
que circula e atravessa tudo, a poesia,
numinoso poder de transubstanciar
um dia em mil anos.
Talvez, sempre talvez,
cultivo da ilusão,
ao invés de dizer não. Não,
não sei nada, é o que digo então, o que sei,
sei vago, um vago, um nada, vagueio,
poeiras de estradas e verdes de vargens.
Intimas descobertas?
Ah, são insignificâncias...

Espera, descontinua esses passos!
Escuta o que disseste para ti mesmo, abrir
a porta do vento... a força do mundo... o numinoso...

Sim, sim, ó planície
te escuto, me escuto, falo,
me vou contente com a maciez das águas
quando atravesso os riachos
e com os suaves lençóis
quando encontro alguma estalagem.
Direi ainda... é magnífico respirar.
Ademais, em ti, ó planície, a respiração é estrelada.

10 comentários:

Sarah Vervloet. disse...

Insignificâncias... aquelas que nos retoma o fôlego e revive uma respiração perdida num vago, feito poesia mesmo. As associações chegam impressionar. Seus poemas pedem, no mínimo, duas leituras. Mas, enfim, posso mesmo dizer que "circula e atravessa tudo".

Beijo.

Liquificadorizando disse...

Três leituras, eu diria.

Disponibiliza o CD de poemas do Drummond! Não dirijo, mas adoraria ouvri no Metrô, rs

Beijos.

Dauri Batisti disse...

...desculpa ai as muitas leituras... rsrs. Vejam, o personagem continua sua jornada pela planície e vai pensando-dialogando com a "planicie" sobre o tempo. Percebe-se pressionado entre o passado e o futuro. Vacila sobre o que sabe e o que não sabe. ...Então se dá conta de que o contraponto ao inexorável poder do tempo é a poesia. "abrir a porta do vento, a palavra,
e brincar com a força do mundo
que circula e atravessa tudo, a poesia,
numinoso poder de transubstanciar
um dia em mil anos".

Abraço a todos.

Ps.: Como digo, além de brincadeira, escrever poemas também é para mim como fazer palavras cruzadas. Desculpa desencantar quem me imagina escrevendo por inspiração".

ex-controlador de tráfego aéreo disse...

Oi Dauri!

Como você atribuiu à poesia o poder numinoso, e certamente ela o tem, a planície, sem dúvida, também influencia o viajante, alterando sua percepção. A dúvida realmente não deveria existir, posto que passa afobado e, o tempo, agente que se impõe à vontade humana, tornando o viajante uma vítima sua; mesmo dando a entender que o viajante é que o controla.

E aqui, parece que se desenovela o enigma:
"....Só ele, o tempo todo, mudo,
me comprimindo entre o passado e futuro,
eu nesse meio, nesse quente,
nesse frio, nesse peso, nesse denso chumbo...".

Espero que Jung não se revire no túmulo com o que eu comentei aqui, hein.rs

Um abraço!!!

Camilla Tebet disse...

"cultivo da ilusão,
ao invés de dizer não"
Dauri Batista.

Essas viagens pela planície.. me parece páginas em branco sendo preenchidas. Com palavras de quem cultiva mesmo a ilusão e a transforma em poesia.
Lindo isso.

LuzdeLua disse...

O tempo...
Que ainda está atrasado.
Muito bom...

"Mesmo que as pessoas mudem e suas vidas se reorganizem, os amigos devem ser amigos para sempre, mesmo que não tenham nada em comum, somente compartilhar as mesmas recordações."
Vinícius de Moraes

Passando, deixo-te um abraço amigo

Tatiana disse...

"Talvez a planície me permita em 360graus a visão do campo no qual fui colocado para abrir a porta do vento, a palavra, e brincar com a força do mundo"

...Acho que a visualizarmos as coisas assim em linha reta, sem curvas, temos maiores chances de enxergar o todo! E assim colhermos o melhor para a nossa alma!

Obrigada por sua presença e palavras!

Abraço carinhoso

KÁTIA CORRÊA DE CARLI disse...

"Talvez, sempre talvez,
cultivo da ilusão,
ao invés de dizer não"

Meu amigo, se é possível, você se superou... fiz como sugeriu, li como quem canta uma cantoria de benzedeira, baixinho, na entonação certa, e soou um canto de solidão.
Planície... ainda não gosto... mas amei seus poemas e passarei a vê-la com outros olhos.
beijos

Círculo Literário disse...

Ficamos felizes em encontrar seu grandioso espaço!!!
tudo muito bem escrito!!

Mai disse...

Oi, dauri.

"... é magnífico respirar.
Ademais, em ti, ó planície, a respiração é estrelada"...respirar, aqui, é melhor ainda.

Abraços.