21 novembro 2008

Dar-se consigo mesmo

...que falem
estes murmúrios de mil vozes.
O que importa na expedição é alcançar
o riacho. Aqui
é um deserto
com torres de petróleo abandonadas
que se avistam de longe,
num choque de melancolia.
Nas margens do riacho há pedras,
cascalhos e mais, mais, um desejo
inexplicável de atravessar para lá.
Ir lá.
Lá onde as vontades, todas
as contrariadas se amarram
na mesma corda e se arrastam
umas às outras,
fantasmas que não cessam jamais
de gemer. Ir lá
e desatar as correias,
soltar os búfalos, os cavalos,
os cachorros e seguir qualquer rastro,
de qualquer fera
para dar-se consigo mesmo
atravessado, desamestrado
qual vísceras esfaqueadas
e dizer,
sendo mais forte que o rumor,
e dizer: sossega,
desce, esquece
as escadas, a elevação, desce,
desce até à perfeição
do canto chão.

12 comentários:

Elcio Tuiribepi disse...

Olá Dauri, também gosto de poemas assim, mas não descarto as vezes os de rimas, acho que por causa da música, da melodia mesmo, do violão, as vezes se torna necessário para se enaixar os acordes. Com certeza de forma livre fica mais bonito, e você o faz com perfeita maestria. Mais uma vez meus parabéns por sua forma de escrever sempre costurando as palavras de forma perfeita...grande abraço

Artista Maldito disse...

Olá Caro Dauri

Atravessar é urgente, sair de um deserto artificial, para ir ao encontro do primitivo som das nascentes...e depois descer o trilho dos riachos, sentir-lhes o murmúrio rés-ao-chão. Descer até à vastidão da planície.

Um beijinho com carinho,
Isabel

KÁTIA CORRÊA DE CARLI disse...

Oi querido
Quero ser planície não...
Mil vezes ser montanhas, planaltos, chapadas, até um pequeno morrete... mas algo que me impeça de ver o que vem adiante... para não sufocar na minha própria mesmice.
beijo e bom fim de semana (um bom livro, um cantinho quente, um chazinho, já tá bom! rs)

Jo Bittencourt disse...

Meu canto é um canto de chão
solo
mudo
Embora
partitura cavada
se converte aguda
jogo flautado a oito pés
.
.
.
Consigo?

rs

Dauri, beijocas!

mundo azul disse...

É bonito o seu poema, Dauri!


Beijos de luz e o meu carinho...

Oliver Pickwick disse...

Prezado amigo, acompanho as suas séries com interesse. Foi uma ótima idéia compartilhar, além de estender os temas num bloco de poesias.
Um abraço!

Sarah Vervloet. disse...

Cuidado ao descer para não perder o caminho da subida.

Apoio a idéia, apesar de não conseguir vir aqui sempre. Mas venho sempre que consigo.

Um abraço.

Menina do Rio disse...

Importa atravessar o riacho. Por vezes alguma pedras machucam, mas no final vale a travessia...
Eu gosto de poemas. Eles contam histórias, mesmo sem rimas.

Obrigada pela visita e seja sempre bem vindo!

Um beijinho

Beta Profice disse...

Deparei-me com a minha teimosia em sempre tentar alcançar o riacho com seus cascalhos mas, nesse momento algo em mim diz pra parar...De qualquer forma ler suas palavras acenderam aquele fiozinho vão da esperança que ainda me resta...Obrigada!
Beijos*

ex-controlador de tráfego aéreo disse...

Oi Dauri!

Então é matar os fantasmas ou conhecê-los bem, saber por que gemem e, se for dor, ajudá-los a se livrar dela; obter a cura.

Aí sim, não havera mais amarras, pelo menos essas não.

Boa poesia, hein!

Um abraço!!!

JOICE WORM disse...

Não sei porque, ainda acho que vou ouvir uma música com as suas letras...

Rosemeri Sirnes disse...

Olá Dauri,

Seu comentário no meu blog foi um carinho, você mais do que eu sabe o quanto é difícil encarar essa empreitada. Outro dia eu disse a uma amigo que eu estava desanimada, mas eu não conseguia parar e ainda que nada seja lido eu forro a mesa e ofereço palavras para livre degustação. Certas coisas a gente não controla. Estamos juntos! Adorei sua página, sua poesia, adorei saber que não caminho só.

Beijos