01 novembro 2008

É assim mesmo o amor?


Já não sei onde me procuro.
Em mim estás, mas não me encontro mais
em teus olhos.

Em cada procura da alma afoita,
na minha pele mais alva, de timidez, escondida,
no horizonte de encontro dos lábios em prece,
...estás.

Nos cheiros que o coração me faz transpirar,
nos recantos do ouvido que aguardam sussurros,
nos vales e rios de carinhos da ponta dos dedos,
...estás.

No gesto de abraço que precede o sorriso,
no rumor gutural que se transforma em voz no eu te amo,
no arrepio, na base de cada pêlo eriçado,
...estás.

Nas pequenas salas em que se distinguem sabores na língua,
na maré dos oceanos de olhares voluptuosos,
no fluxo vulcânico de sangue, de amor, rijo,
...estás.

Estás em mim e não entendo
por que não me encontro mais
em teus olhos.

Teus olhos tão claros
não de cor, escuros que são,
mas claros de amor, agora são turvos.

Esgoto-me de olhar e não vejo reflexo
em lugar nenhum, como se o sol,
um outro, de dentro,
de lá não mandasse mais brilho e calor.

Tu me tentas convencer dizendo
que é o mesmo o amor que me tens,
me tratas com tanto carinho,
há uma ternura tão linda no teu jeito de falar
que sinto vontade de ficar,
ficar, ficar, ficar ao teu lado.

Mas...

mas onde andei foi em caminhos de brasas
e sei que em cinzas agora é que piso.

(É assim mesmo o amor? ...Fênix?
Um universo se acabando
e outro, diferente, surgindo, estranho).

14 comentários:

Elcio Tuiribepi disse...

Olá Dauri, bom dia...valeu a visita...Fechando com chave de ouro o seu sétimo poema. Vou destacar aqui a parte que mais gostei, e que foi essa:
"Esgoto-me de olhar e não vejo reflexo
em lugar nenhum, como se o sol,
um outro, de dentro,
de lá não mandasse mais brilho e calor"
Quando puder dê uma passada em meu post do dia 30 e deixe sua palavra. Um grande abraço e que outros universos possam estar sempre a encantar suas palavras. Bom final de semana...me alonguei de novo...rssss..valeuuu!!

Sergio disse...

"Assim é se lhe parece" - diria ela em tom blasé, nunca correspondendo ao despertar do seu desespero.

Maria Helena disse...

Ao voltar da visita aos meus, e tantos outros que já se foram,e encontrar esse poema foi muito bom.Viajeiiiiiiiii.
Eu acho que todos os dias há uma Fênix nascendo das cinzas do ontem.
Abraços
Maria Helena

tossan disse...

Viver é melhor do que sofrer. Gostei! Abraço

Menina do Rio disse...

Então direi eu que o amor é o próprio Universo em movimento e que os sonhos são Fênix, sempre a reviver das brasas dormentes cobertas pelas cinzas do aniquilamento das paixões. Como o dia que sucede a noite, como o sol após a tempestade, como as estações...

Muito grata pela tua visita lá no Recanto.

Um beijo!

http://meninamomentos.blogspot.com

Carlos disse...

uma constante mutação... mais vale renascer, deixar o sentir de novo tomar conta de nossa alma, nem que seja o mesmo amor, renascido...
Muito bem

Abraço

Jacinta Dantas disse...

Então, sete, são os movimentos do amor? infinitos movimentos e jeitos e...Amor presente nas leis universais, nas notas musicais, nas cores do arco-iris, abençoado pelos Arcanjos.
Mas, na falta de palavras que expressem o que sinto, melhor pegar emprestada de outro poeta:

Por ser exato o amor
não cabe em si
por ser encantado o amor
revela-se
Por ser amor
invade
E fim!
(Djvan)

Beijo

eder ribeiro disse...

o amor deve sempre, sempiterno, ser mutável, mesmo que seja com a mesma mulher, pois é a mesmice de sempre que dá ao amor este fim trágico: o fogo da morte. Abçs.

Jéssica disse...

Eu acredito que seja assim sim, e porque não? Ninguém nunca sabe quando acontece uma nova explosão.

Adorei, lindo *-*

mundo azul disse...

...a impermanência da vida!
Ah, quem dera houvesse uma estabilidade nas emoções e sentimentos...Quem dera!

É um poema muito bonito, que nos leva a reflexão sobre a transitoriedade de todas as coisas...


Beijos de luz e um domingo feliz!

Opuntia disse...

Como disse o Drummond, "o amor foge a dicionários e a regulamentos vários". Não tem razão, nem explicação.

Bjos

Dora disse...

O fogo do amor se queima a si próprio...Sim. E surgem as cinzas. Não estar no outro, com a força e o brilho de antes, é indício de esgotamento do calor.
Mas, sempre há fagulhas. E se houver vento, haverá a possibilidade da fogueira re-acender, ou renascer como Fênix. Diferente, "estranho", mas, sempre Amor.
Abraços, poeta amoroso.
Dora

Pelos caminhos da vida. disse...

Renascer sempre!!

beijooo.

João da Silva disse...

Os versos pelos quais se filosofa são sempre os mais belos. Eles se questionam e nos fazem pensar, obrigam-nos a responder quem somos, e eis aí o enigma esfíngico insolúvel. Sou o que sou, mas... o que sou?
Adorei. A imagem da fênix, que de suas cinzas renasce; o samsara da vida, o eterno descobrimento do que não se logra integralmente descobrir... de uma riqueza ímpar.
Grande abraço do João!