04 outubro 2008

Vai entender? nem mesmo eu

Recordo-me, esquadrinho meu peito, ressinto
desejos atrevidos pela minha mesma vida.
São estranhos estes momentos, andamento,
sou espetáculo e sou olho engastado, paisagens.
Montanhas equilibradas em beleza e desgaste,
córrego miúdo que pacientemente refaz suas curvas,
pomar cheio de frutas e mato, esquecido.
Vai entender? Nem mesmo eu. Me examino
traços e mau cheiro, espessuras e defeitos, imperfeições
que por dentro - nem sei se em mim - crescem,
crescem e me matam, ao mesmo tempo em que
estruturam uma ambição de brincar, brincar. Sem saber
pintar atirei as tintas no chão e marquei nelas meus pés
para escrever na língua desoriente
outra versão desta frase que me pronunciam.

18 comentários:

Tentativas Poemáticas disse...

Olá Dauri

ESCRITA BORRADA

A Vida
Borrou a minha escrita.
Com os pingos negros
Escorreram para o chão
Todas as minhas tentativas
de Poemas medíocres,
Logo lambidas
Por uma esfregona de trapos...

Gostei de conhecer aquilo que escreve, maravilhosamente.
Um grande abraço.
António

Rui Caetano disse...

Ora, desejos atrevidos...

Ana Paula disse...

Ei Dauri,
saudade de passar por aqui e deixar minhas impressões. Como sempre, belos poemas em palavras inteligentes, elegantes - às vezes enigmáticas para as minhas limitadas referências - mas sempre, sempre, palavras que me proporcionam grandes e boas reflexões.
Gostei muito de sua sequência de poemas-brincadeira-com setembro-e-me vejo. E por falar em "me vejo", vejo-me, nesses seus versos, revendo-me, como se me olhasse de fora, com minha imagem espelhada em águas límpidas. Na água-espelho, assumo minhas imperfeições. Vai entender? nem eu.
Então brinco com a mesma água que me mostra como sou.
Um abraço

Ana Paula

Dauri Batisti disse...

ANA, ANA
que bom que você reapareceu.
Nossa! Tanto tempo. Por onde andaste?
Por falar "por onde andaste" lembrei Manuel Bandeira.

— Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que saudades me deixaste?


— Andei onde deu o vento.
Onde foi meu pensamento
Em sítios, que nunca viste,
De um país que não existe . . .
Voltei, te trouxe a alegria.

...

Dora disse...

Oi, Dauri.
Um olhar prá dentro, um olhar prá fora. Está tudo misturado aí. As paisagens exteriores já se internaram no "eu".
O tempo transforma os "traços" pessoais do poeta _vai entender?_ em lúdica atividade(que bom!!).
Criação de poeta é isso: uma versão nova do mundo, pintada com as "solas dos pés", que fazem e re-fazem as andanças até as palavras.
Os poetas...vai a gente entender...não?
Abração!
Dora

Dois Rios disse...

Dauri,

Gosto do teu jeito de poetizar, ainda que os teus versos tenham uma visão muito pessoal do poeta que há em ti.
---
"Poesia é escapar ao nojo fazendo beleza com dejetos de um rio longo tortuoso que vem de fonte límpida, mas no caminho, vai se sujando demais de vida mesmo..." Irene Vieira

Beijo,
Inês

poetriz disse...

Um dia eu já pensei em jogar tinta na parede e pintar com as mãos. E saísse o que saísse, ia ser poema.

Bjs!

Plinio Uhl disse...

precisa entender?

abs!

Tiago Soarez disse...

Dauri,

Assim como o plínio disse: precisa entender?!

Abração e ótimo fim de semana.

Tiago Soarez disse...

PS: Hoje é sábado, quase 23h... e eu te desejo ótimo fim de semana?! rs.

Reforumando: ótima semana para vc!

Bossa Nova Café - textos, música e arte!

eder ribeiro disse...

somos tudo, pq cabe tudo em nós, até o impossível, basta querê-lo possível, assim como vc, grande poeta, percorrer por todos os temas, e sabe, como ninguém, poetizar. parabéns dauri. depois desta poesia, sou obg aplaudi-lo de pé. ADOREI.

Eurico disse...

"córrego miúdo que pacientemente refaz suas curvas..."
Não precisa entender, basta viver e viver é equilibrar beleza e desgaste de montanhas e de pomares fungíveis. Inda que a língua do ocidente se de(s)oriente, escrever/brincar, com os pés no chão, a nova versão que ecoa em ti, em mim, em nós, das frases que nos pronunciam.

Gui Sillva disse...

"desejos atrevidos pela minha mesma vida..." fazem a vida ficar mais gostosa.

Obrigado pela visita lá no GF.
Volte sempre.
adorei o blog.
Guilherme

JOICE WORM disse...

Não vou comentar.
Vou introspectar.

Jéssica disse...

Eu não entendi.

;D

;*

Dauri Batisti disse...

Jessica menina linda,
vai entender, nem mesmo eu.
Mas veja, o poema fala das contradições do personagem que tenta se entender e se vê em dificuldades. Depara-se ele com as contradições que na maioria das vezes queremos esconder.
Ao mesmo tempo ele percebe que a vida tem que ser levada de leve, "brincando".
Ele fala em escrever na língua "desoriente", ou seja quer subverter um caminho estabelecido e fazer outro com os pròprios pés.
Ele quer falar/fazer o próprio caminho ao invés de ser a palavra dos outros. Por ai...

Sarah Vervloet. disse...

Esses desejos atrevidos...

Obrigada pelo seu comentário, rapaz. Estava sem internet, mas agora tive oportunidade de lê-lo.

E você, sempre magnífico!

Beijo beijo.

Jéssica disse...

Eu sei, dauri, eu entendi a jogada do personagem. Só comentei o "não entendi" pra entrar na brincadeira. hehehe =D

;*