20 outubro 2008

Amarras molhadas
(não à violência)

Como uma reza, uma salmodia
ele dizia não me sinto bem,
não me sinto bem. Fustigado
por olhares, acuado num canto da rua
reagia como se estivesse amarrado,
puxado por um caminho que não queria.

Ameaçava chover, mas não chovia,
aumentava o calor e as pessoas diziam
vai chover, vai chover. Ele não,
não pode chover, não, não.
Preciso morar longe da chuva,
preciso viver longe da chuva,
o diabo me persegue molhado, eu fui avisado.
Ninguém entendia o que se passava.

Do meu ponto eu olhava, olhava. Mesmo de longe,
frio, tudo eu via, tudo eu ouvia. Me compadecia.
Julgaram-no louco, drogado, bêbado e foram embora.
Eu fiquei. A noite chegou e o centro se esvaziou.
Me aproximei e relâmpagos caíram. Chuva forte.
Ele ainda repetia baixinho o diabo me persegue molhado.

Quando cheguei ao seu lado eu esperava um sorriso
mas ele só foi capaz de apontar para mim apavorado
e repetir o diabo me persegue molhado. Chorava.
Frio, olhei para ele por detrás da caixa de papelão
e depois para mim mesmo, encharcado... sorri.

...como em outras vezes, me dei conta de quem eu era,
mas logo esqueci, no momento exato do estampido do tiro.

Coitado! Quem lhe meteu esta bala no ouvido?




7 comentários:

JOICE WORM disse...

Há dias que eu queria ser uma môsca para te ver escrever... Aliás é melhor não, senão me matava com um tapa! Viche! Já voeei. Melhor assim, lendo-te da minha pequena sala e do meu amplo coração...

tossan disse...

Trágico e poético! Um texo fantástico e uma frase importante;
Preciso morar longe da chuva... Abraço

anderson eduardo disse...

Como disse meu amigo tossan, "trágico e poético"... ficou lindo, parabens, tenha uma boa semana e obrigado pela gentil visita

Artista Maldito disse...

Carissimo Dauri

Completamente inesperado esse final, até senti o tiro, como se fosse um trovão repentino.
A tragédia abate-se em qualquer lado, por vezes refutamos a ideia de estarmos longe dela.
Tiro certeiro na consciência de quem ousa...não querer ver.

Um beijo de amizade
Isabel

Ramon Alcântara disse...

Bem construído. Pensava no início na poesia da Possessão, mas surpreendeu-me o final. Quem é o louco? Que é a loucura?


abzzz

O Profeta disse...

Tu és grande...escritor...



Abraço

Octavio Roggiero Neto disse...

oi, poeta Dauri, meu querido, hoje alçou vôo um pombo daqui pra Vitória. que ele pouse em seu coração com tudo o que está levando. espero que isso proporcione bons momentos de sonhos pra você! forte abraço!