09 junho 2008

Os pássaros que recebi do rei

Antes eu disfarçava
minha beleza estranha,
meu poder de nada,
senão de olhar.

Dane-se agora quem não me quiser ver.
Vou deixar ir, mais e mais
os pássaros que recebi do rei.
Vou deixar que saiam

(Pode dar gastura ver os pássaros
saindo do meus olhos)
cantando, em bandos,
por cada coisa que enxergo.

E quando todos tiverem voado eu também terei ido.
Minha vida terá terminado.
Sairei pelos meus próprios olhos
e me verei sorrindo.

São tantos, no entanto, para muitos vôos
que quanto mais olho e os deixo partir
mais pássaros – eu desconfio – o rei
secretamente aninha dentro de mim.

Um prazer, uma sina, uma agonia.
O rei não me fala claro, mas sinto em cada fragmento
do mundo que vejo, que ele me implora em segredo,
lhe descreva o que vi.

8 comentários:

John Doe disse...

perfeito, senti aquela agonia sabe, aquela boa, quando você vê algo que te encomoda a escrever, quando te dão mais um motivo, como se já não tivessemos muitos, mas pra nós quantos mais melhor não é mesmo...

John Doe disse...

já ia esquecendo, você me superestima, mas quem sabe um dia chego a escrever no nivel do nosso amigo gamella...

Luci disse...

Nossa, Dauri, isso sim é poesia da boa. Sentir, refletir. Emergir nas palavras que nos tornam maiores.

E obrigada pelas palavras, tamém significantes, que deixastes de presente em minha humilde morada.

Bjos,

Luci:)))

Beto Mathos disse...

Quem sabe, voa.
Abraço!

Ricardo Soares disse...

quem sabe, voa, como foi dito acima...gracias por sua visita e seu gentil comentário em meu blog... volte sempre...abs

Octavio Roggiero Neto disse...

maravilhoso, em cada palavra! surpreendente, como de costume! sem sombra de dúvida, é o que de melhor tenho lido! e que alegria é poder ler seus poemas: fico cheio de exclamações.
recebi há um tempo seu e-mail, não me esqueci não, viu?
um abração!

F. S. Júnior disse...

voar de si, de dentro de si pra se esvaziar e em voando se encontrando novo... mil eternidades depois.

KÁTIA CORRÊA DE CARLI disse...

Ah! meu amigo,
Não teve despertar, nem sol, nem novo dia... sobraram cinzas, solidão e um monte poema.
Mas no fundo ganhei eu, ninguém se joga a um amor assim e sai ileso. Mas se não se assircar como conhecer?
Eu conheci! Então valeu!
beijos e luz