16 junho 2008

A noite não dava tréguas
Da estrada batida pelos cascos do cavalo subia o único som claro. Do mais, aquele resto de noite era preenchido por pequenos ruídos indistintos, de insetos, de pequenos animais, de aves melancólicas e desorientadas. Havia o leite para tirar, não poderia deixar as vacas sem a ordenha. Mas, ó Deus, não era hora agora de pensar nisso, tinha que se preocupar com a mulher que se contorcia desde a tarde do dia anterior em anúncios de parto complicado. Devia ter procurado a parteira logo, o que não fez pensando que seria como dos outros cinco filhos, tudo aconteceria na hora certa como sempre, bem, e o choro da criança encheria a casa sem que ele tivesse que mudar muito sua rotina. Era diferente agora, no entanto, e por volta de duas da madrugada se ia apressado buscar a parteira, rezando para que nada acontecesse de ruim com sua mulher sozinha em casa com as cinco crianças pequenas. A criança estava se apressando na hora. O dia previsto estava adiante no calendário e ele se sentia quase que enganado. A maiorzinha de doze anos fora bem orientada e cuidaria dos pequenos e da mãe enquanto ele estivesse fora. Ficou tão assustada ao ver a mãe se contorcendo em dores na cama, que só poderia prometer ao pai tudo que ele pedisse... Filhos ele os tinha, mas atenção para os mesmos quase não dava. Mereciam mais seus cuidados os animais, o gado, os cavalos. Não gostou de pensar assim apesar de ter que admitir que, a despeito da brutalidade de que se valia na lida com os bichos, mais estava na companhia deles do que das crianças. Sinuosamente nas curvas das montanhas dominadas pela escuridão da noite, a estrada seguia. Seus olhos rentes com a aba do chapéu iam adiante, fixos, como se não vissem nada mais além da estrada que cortava a terra. Ia procurar a parteira antes do previsto assim como cantava fora de hora um pássaro - sabe se lá qual - visto que sua atenção não se resguardava para ouvir passarinhos, mesmo que o pio do bicho provocasse arrepios. Benzeu-se, pois passava exatamente pela cruz do Gervásio, plantada logo ali, naquela árvore pela qual sempre passava apressado e que exigia atos de devoção e preces. Esse tal fora namorado da Maria e o dito maldito se tinha enforcado exatamente no dia do seu casamento como pra ficar pra sempre perto dela. Acelerou o galope enquanto em voz sussurrada pedia que lhe valesse o canto do pássaro noturno como de um anjo a anunciar o nascimento feliz da criança. Apesar do galope a noite não dava tréguas.

3 comentários:

Beto Mathos disse...

Essa vertente eu ainda não conhecia. Mas, como tudo o que vêm de sua caneta, é mágica pura, dolorida mágica, mas, mágica sempre.
Sentindo sua falta nos meus espaços.
Abraço, amigo poeta!

poetriz disse...

Fiquei com gosto de quero mais.

E que surpresa a minha quando achei a prosa ao invés dos versos tão alinhados!

Mas sobre o texto, as pessoas tem formas diferentes de amar. As vezes garantir pão, cama e teto é mostrar mais afeto e cuidado, que muitas outras formas que vemos por aí...

Bjs!

Maria Helena disse...

E a crian�a nasceu bem?E a m�e?As outras crian�as? N�o quero um fim criado por mim.Estou em dores de parto.Conte!...