29 setembro 2007

Escriba do rei em momentos de inquietude

Me retirei para uma cava nas montanhas,
lá encontrei os malditos pastores que falam outra língua,
com suas ovelhas e cabras, que sempre estão onde não devem.
Enxotei-os de lá e tomei-lhes o que me servia,
mas eles continuaram por ali.
Fui para escrever as máximas que deveriam ser boas
mesmo se alguém não concordasse que fossem.
Fui escolhido pela inspiração e aferro que imaginam sei ter.
Sei das minhas obrigações, não espero que me mandem.
Faço o que devo como fiel do império.
Candura que nunca tive aparece no dizer quando escrevo
com destreza - ou sinistreza - o que "docilizará" os vassalos.
Levei tinta, couro, óleo, lamparina e coração
- um resto de amor ilusão de quando era moço.
Ao escrever, estranhamente,
as palavras foram tomando certos cíngulos
do cérebro que nunca usei e forçaram
indagações estranhas sobre a verdade.
“O que parece tão torto certo já foi
e curva é a via
que se precisa
para contornar o pântano intransponível”.
Fiquei atordoado, saí, matei dez ovelhas,
esquartejei uma em mil pedaços. Me ensangüentei,
comi o que não pude, me empanturrei de gordura,
bebi todo o vinho, tudo aos olhos dos pastores imperturbáveis.
Nada mudou, inquieto continuei, inchado de orgulho e de verdades.
Mas ao final me deixei partir pela espada:
ou me junto aos nômades,
retomo a lingua que jamais consegui esquecer
e resisto ao império,
ou continuo o iludido escriba fiel
que já tem sua hora de morrer.

Um comentário:

Ana Paula disse...

Escrever faz isso. Navega-se por muitos mares e se permite alçar vôos por ares inimagináveis. Por quais mundos deve andar o autor enquanto passeia seus dedos pelo teclado?. A graça está em agregar sentimentos, pensamentos e opinião. Mais que isso...
Uma carícia para os olhos e o coração. É só se deixar acariciar.
Ana Paula