08 setembro 2007

Desaguar numa nova manhã

A estranheza do olhar
não está no rio no-fim-do-dia,
na tarde feita de escória de cores.
A estranheza está no que se foi
no que ainda não veio,
no fora que já é noite, entrementes.

Eu me imaginei firme como uma rocha
um São Pedro-de-botas
altivo e feliz.
Sou só a dobra dessa noite fora,
fluidez e acontecimento,
que se faz sentir como um rio.

Não é sem sangue
que me reviro de um lado para o outro
em lençóis suados
em cada palavra escrita
para desaguar numa nova manhã.

05 setembro 2007

Interstício

Estou num interstício
indo e vindo
procurando resistir.
Não crio nada de coerente
só me debato contra as correntes
sangro e choro esse desejo
que me impõe um aqui
me inventa
venta como deus
me sopra nas narinas
e me faz “feliz”.
Me produz entre aspas
me cobre com uma capa
E me diz:
desapareça

31 agosto 2007

Carros abandonados

Esta terra está cheia de sonhos despedaçados.
Cada vale, cada vala
se entope dos seus pedaços
enferrujados
deixados ao léu.
E os novos são amontoados
por todos os lugares
embora os velhos não se tenham ido embora.
Demoram-se em decomposição lenta.
Ficam.
São fantasmas os sonhos
- carros abandonados -
alguns ainda lindos.
Nós que agora vivemos
(quer palavra mais feia do que essa que nos define:
consumidores)
como vacas que pastam;
sonhamos os sonhos dos outros
pensando ser os nossos.

30 agosto 2007

Reflexo

Me doeu na alma o reflexo na lâmina do rio
que neste deserto corre como se fosse uma canção de ninar
na voz de uma velha , bem velha mulher .
Terá O Filho passado por aqui quando caminhou na terra
e enxergado O Pai-do-céu pelo céu que se vê ao olhar pro rio?
Bem poderia ter sido desse modo,
o que explicaria minha dor agora,
além da secura na garganta
e do desatino do viver.
Na agonia da sede, antes de beber
me dei tempo de olhar e vi
no reflexo o que não esperava ver.
Um olhar (Do Espírito?) que ficou aqui
nas águas, nas pedras
nas ervas, no limo
no fundo.
Não, de Deus não,
me engano e me iludo.
O que vi foi meu próprio olhar
- e como me dói.
O deserto me fez seco
e áspero como as pedras.
As viagens são fundas e curtas.
Meu olhar é opaco de inveja
desse rio que atravessa o deserto
e se espalha raso-calmo
só para espelhar o céu.

27 agosto 2007

Na margem desse agora

Essa água escorre e vai
pelas costas dessa Gaia velha
e se desperdiça em voltas e curvas
num caminho que se assemelha ao meu.
A parecença fica por aí,
pois do milagre que a Gaia velha faz
- que se mostra na montanha corroída e áspera
gemendo em gozo por séculos
nesse lindo filete d’água -
eu não sou partícipe.
De dias pequenos é que sou comparte.
Nem reparam nos meus anseios e já passam
um depois do outro
antes do fim do meu gozo escasso.
Destituído da conivência dos dias que se seguem, falho.
Não canto a música que tocam,
não choro a mazela que anunciam,
não engulo a batata-frita que comprei,
olho a montanha e não fico zen.
Fico assim,
nem dentro, nem fora,
na margem desse agora
que já passou.

22 agosto 2007

Trilhos

No descanso pensaste
escrever um poema
e quem sabe encontrar
a leveza de um momento
nessas horas, tantos tormentos.
Mas o que veio foi um trem
pesado e forte pela mente
atravessando sem piedade.
Ficou a imagem,
dos trilhos brilhando por cima
onde o atrito se dá
e a ferrugem embaixo
onde o ferro e a madeira fazem um pacto
de indiferença e frieza.

21 agosto 2007

Hora morta

Aquele anjo naquele barco,
lindo porto-só-desconsolo,
porão vazio, alma parada, maré subindo.
Navio sem carga, recordações,
hora perdida na madrugada.

Aquele beijo naquela noite,
a maciez na mão sem tato,
o desejo aceso, o ato.
Depois o sono veio pesado
e veio mesmo prendendo a mente,
inviabilizando qualquer poesia.
Ela esperava uma palavra
depois de tanto sexo sem expressão.
Nem antes, nem depois, nem quando os dois
passeavam pela beira-mar,
e ela ensinava desesperançada
- a boca há de falar do que o coração se abarrotar.
No ultimo espasmo do gozo farto
o pensamento deslizara em intenções:
usar aquele barco, aquele anjo,
juntar cenário, verbo e sentimento
num belo jeito de dizer “te amo”.
Barco e anjo mal pintado foram dar no sem-fim-sem-nada.
Nada durou, ela cansou e foi-se embora.

Da tal morta falara um dia o amigo.
Ele desconhecia tal expressão.
Sabia agora, mais do que sabia, sentia
o cais, o navio, a maré,
tudo a acatar a hora,
a de agora
a morta.

20 agosto 2007

Maçãs e percevejos

Me dobrei de dor,
de não saber,
de querer saber.
Nessa luta que não acaba,
poder que perdi.
Ganho que tive foi ser
sei lá, quem se vê.
Me vi sozinho aqui
e não tive outro sonho
senão o que me acordou
enquanto me perguntava
quem eu era,
ora essa!
Quem era esse
Eu.
Me dobrei mais que pude.
(Sentir a dor
me é dado poder).
Me dobrei por dentro
e apareci por fora
e descobri na hora
replicada em tantos instantes
que sou um feixe
desarranjado de linhas,
emaranhado de desejos,
maçãs e percevejos.

16 agosto 2007

Pronunciar o silencio

Quis pronunciar o silencio
e disse para mim mesmo,
o silencio.

Outro desejo surgiu,
quis dizer el silencio.
Assim em espanhol me pareceu
nome de vale.
Não era o que eu queria.
Que querer é esse?

Procurei outras línguas,
nada aconteceu.
Voltei à língua mãe,
ao silêncio.

(cetim, lã, algodão, veludo)

14 agosto 2007

Escorrendo em prata

A vida anda escorrendo em prata
mas é chumbo derretido, ao invés.
Tem uma aparência de brilho que ilude
mas logo o peso do chumbo imprime seu cinza.
Fica para lá do horizonte barrado
aquele sol que ainda brilha na dor.
Essa consternação de viver sabendo
que não há transcendências no chumbo
não me permite o engano.
O chumbo escorrido como se prata fosse
faz um vale devaneante para olhares compassivos.
Eu vejo o que não desejo
e lamento o mundo
que longe, longe ,
se mostrava em profecias ruins,
mas no instante da respiração presente
é o dia que chegou concreto
sem qualquer chance de fuga.