27 setembro 2011

Mas havia uma certa luz vinda de não sei onde

É um pretexto, eu sei, algo que se inventa para uma conversa que parou. Tem uma cena clichê, mas apesar, é certo, este início exige um olhar caolho. Quereis se ter em vesguices por um minutinho? Foi assim, chovia, o dia frio se findava nas luzes já acesas e nas cozinhas quentinhas das casas lá fora, tu vinhas andando com pressa entre os canteiros, mas como também eu seguia com a mesma pressa, e em sentido contrário, nos esbarramos, nos desequilibramos, caímos sentados, caíram as flores que carregávamos. Mas havia uma certa luz vinda de não sei onde. Tu tinhas colhido rosas, e exatamente as amarelas, que para mim são as mais bonitas; e eu margaridas, uma braçada de margaridas, e ainda no embornal atravessado no peito muitos morangos bem firmes e densos de vermelhidão. Teu pai sempre nos espiava. Tua pressa e a minha tinha o dia seguinte - mais uma feira livre - como motivo. Ainda tínhamos que organizar muitas flores e verduras em maços, muitos morangos em caixas, inhames, vagens, muitos pensamentos em folhas. Mas rimos muito, lembras? Éramos tão felizes. Tu recolhias minhas margaridas e eu tuas rosas. A chuva era mais forte. Pelo jeito engraçado que dançávamos recolhendo as flores, os pés afundando nos canteiros fofos e molhados, quem nos visse pensaria que aquilo era cena de um filme japonês. Mas o que aconteceu mesmo foi que nosso olhar caiu sobre nossas mãos, ansiosas, calejadas, molhadas, marcadas de terra e flores, que se tocaram no impulso de apanhar a mesma flor. Foi o tempinho só de um olhar... pronto...  Lembras?

9 comentários:

EDER RIBEIRO disse...

O amor nascendo entre flores, perfumando os amantes a se conhecer pelo olhar. Bela crônica, querido Dauri. Abçs.

Paula Barros disse...

E o pássaro azul voo, voo..

Esta imagem dos barcos me lembrou um conto seu. Gostei da tonalidade, me fez retornar no tempo.

"muitos pensamentos em folhas", colocar esta frase como você colocou me fez imaginar os pensamentos feito um pé de alface, ou de couve folha.
Sua imaginação para a escrita é fantástica.

Paula Barros disse...

"Tu recolhias minhas margaridas e eu tuas rosas"

Uma cumplicidade me passou.

Dois Rios disse...

Ah, Dauri, como você escreve bonito! É difente de tudo que já vi e, ao mesmo tempo, tão familiar, tão perto, tão nosso!

Lindo demais! Você é especial!

Um beijo,
Inês

Luis Eustáquio Soares disse...

com um olhar, em perspectiva, dauri, se escreve uma divina comédia,
sempre sinuoso e fabuloso,
seus testos
saudações
delamancha

Carla disse...

E entre a flor e as mãos... um olhar... ou olhares...


Bjos

mundo azul disse...

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...um breve e intenso olhar, a gente não esquece mais...Encontros assim, são a dádiva que os deuses nos proporcionam muito raramente.

Gostei, gostei, gostei demais!!!
Você tem um jeito de contar histórias...


Beijos de luz e o meu carinho!


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Ilaine disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ilaine disse...

"...Uma braçada de margaridas!" E, como a Paula, preciso destacar aqui ainda esta frase: muitos pensamentos em folhas.

Um encontro de doçura por entre o colorido das rosas e o borbulhar de uma feira. Um texto cheio de aromas e sabores. " o impulso de apanhar a mesma flor..."

Um escrito bonito... tão bonito!
Tão típico de ti.

Abraço, com carinho