24 setembro 2011

executar a invenção

semelhanças com curvas de estradas, com redes dependuradas em casa de pescador, com vaso tombado num quintal cheio de folhas. Penso em outras semelhanças também, semelhanças com aquele personagem de Guimarães Rosa em A terceira margem do rio, que se posta numa canoa, e pelo olhar do filho não ia à parte alguma, “só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio”.  Paro aqui... pra mudar o rumo do pensamento, pra fazer outras conexões, pra alterar com abrandamentos o bater do coração.  A invenção... executar a invenção de se permanecer, assim, talvez, ao modo de se permanecer no espaço de uma felicidade, pequena, mas que abre hectares e mais hectares para o cultivo de girassóis, ipês, milho; se permanecer na amplidão do campo de uma saudade e recolher a madeira abundante ali para uma casa de cômodos aconchegantes e varanda vistosa, casa para muitos amigos;  se permanecer nesse abraço cheiroso e dar-se sem receios ao esquecimento, ao esquecimento das horas.

4 comentários:

EDER RIBEIRO disse...

Houve uma época da minha vida, na infância, que a felicidade permanecia debaixo de um pé de amendoa, cuja sombra era conforto para um senhor e seu neto e para esse mesmo senhor contar sentado num tamborete suas histórias e para esse mesmo neto sentado no seu colo vislumbrar a permanência da felicidade ali. Abçs.

Paula Zilá disse...

que maravilhosa execução inventiva é esta escrita tua, meu caro!

um grande abraço

Eurico disse...

Reencontro o vigor de tua escrita, amigo.
Isso me reanima.

Abraço fraterno.

Ilaine disse...

A invenção... executar a invenção de se permanecer...

Este pensamento em outros rumos me envolveu. Permaneci neste abraço e dei-me sem receios ao esquecimento... Nestas palavras eu fiquei, me acolheram, me prenderam. Abraço cheiroso... esqueci as horas.

Como faz para escrever assim como você? Abraço forte!