23 março 2011

Inesperado sol

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Um vento frio entrava pelo carro, nenhum dos dois se dispunha a levantar o vidro da janela, calados, cada um do seu lado, necessitavam daquele estímulo sobre a pele, o vento constante fazia-a eriçada, o olhar atento na estrada traçava na mente de cada um pensamentos assustados e mesclados de ternura, terno sentimento que se adquire quando se assiste a um drama, comiseração proveniente da cena, a quase morte de dona Estelita, o carro atravessou o filete d'água que na areia branca da estrada escorria da velha e grande caixa, lembrou-se do pássaro vermelho, a água espirrou-se para os lados em som agrádavel, memórias de pequenas viagens por estradas de chão em tempos de felicidade, tempos sempre curtos, filete como se fosse um córrego, mas não era, era água vazada, escorrida, procurando ela mesma ser alguma coisa entre o escorrer pela gravidade e a busca do mar, regato que avistou quando de sua chegada, passou então pela guarita e não viu ninguém, perguntou sobre o segurança, Dias respondeu que ninguém ocupava aquele lugar a um bom tempo, Augusto disse que havia um homem ali que o tinha recebido, sim, disse Dias, correu um boato de um novo gerente que estaria por chegar e alguém pode ter se colocado ali para esperar o senhor, mas ninguém recebe salário pra trabalho nenhum aqui, nem ninguém desempenha funções específicas, e estas chaves? perguntou Augusto, foi o rapaz da guarita quem me entregou estas chaves, e fez isso como se cumprisse ordem, não sei, respondeu Dias, não sei. Na volta, o padre sentado entre os dois na boléia perguntava uma coisa ou outra, mas a maior parte do tempo mantinha-se calado, lendo, ou tentando ler seu livro, um livro decerto já velho, capa dura marron brilhosa, e ao falar, falava com a boca torta, disse se explicando que um dente doía-lhe muito e um amigo dentista paroquiano tinha se dado à caridade de atendê-lo mesmo no domingo e que a boca, por isso, ainda estava anestesiada em sua metade esquerda, rezara a missa das seis da manhã suando de dores ao pronunciar as palavras sagradas, este é o meu corpo, este é o meu sangue, e a das nove, que começou por volta das dez, com a boca torta e com a sensação de babar, mas rezou, fazer o quê, as crianças riam, mas era mesmo a missa delas, e com crianças o riso sempre ajuda, falava o padre pondo a mão com um lenço sobre a boca e a voz pastosa saía entre o estranho e o solene.

9 comentários:

MARIA HELENA disse...

A água vazada da caixa procurando o mar...Não somos todos assim?
Muita poesia até na boca anestesiada, e por isso torta, do padre.
Amei!
Abç.

Samaryna disse...

Dauri, resalto esta passagem do conto: "fazer o quê, as crianças riam, mas era mesmo a missa delas, e com crianças o riso sempre ajuda", com certeza o sorriso de uma criança é um bálsamo. Deixo o meu afeto.

Tatiana disse...

Olá Dauri!
Venho até aqui pedir a sua atenção para um assunto sério e que com a união e participação de todos poderemos salvar vidas.
Eu e o meu amigo Milton Kennedy, resolvemos nos unir em prol de uma campanha sobre a doação de medula óssea e contamos com todos os amigos da Blogosfera para divulgá-la.
Você poderá nos ajudar?
Desde já agradecemos...
Um abraço carinhoso

Jacinta Dantas disse...

Quais portas serão abertas pelas chaves que Augusto tem em seu poder? Por enquanto, vou seguindo, enturmando-se com suas personagens e passeando pelas seus cenários.

Mas, tadinho do Padre. Rezar missa com dor de dente? (rss)

Beijo

Eurico disse...

Isso, Jacinta. As chaves são o nosso delicioso chamariz rsrsrs
Que delícia de texto. Quantos monólogos interiores como num tela impressionista. Teus personagens se produzem pelos cheiros, pelas coisas em torno... o teu estilo, Poeta, é um estilete em madeira boa de talhar.

Abraço fraterno.

Carla Diacov disse...

de furar os olhos, os ovos!!!!

Jacinta Dantas disse...

Hummmmmmmm!
esse cheirinho de café que estou vendo ali em cima, é muito bom. Bom de ver... bom de sentir.

Beijo

Paula Barros disse...

É sempre interessante observar seus textos, sua escrita. A volta da água em filete, da caixa d'água do pássaro vermelho...é o escritor que sabe desenvolver a história, e retornar em algum momento com algum lembrança.

Sempre contendo frases que emocionam, que levam pela reflexão do cotidiano, da vida.

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As imagens desta semana foram tão leves, belas, alegres. Um sorriso de criança.

Ilaine disse...

Augusto e Dias... Em tempos de felicidade. Sinto estes dois personagens próximos. Há algo ainda não revelado entre eles. Talvez o símbolo "Chaves" esteja relacionado com uma relação maior: "... na mente de cada um pensamentos assustados e mesclados de ternura..."

Dauri, o cenário de tua escrita é pontilhado de melancolia. Há, também, o mistério que guia a narrativa. A cada capítulo o leitor anseia por saber mais sobre a amizade possível - impossível dos personagens principais.

Palavras escolhidas a dedo, com delicadeza - espalhadas por todos os capítulos. Beijo