26 janeiro 2011

Inesperado sol

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Acordou mais cedo do que imaginava, um pouco depois das dez, a manhã que escorria pela fresta na estrutura metálica daquela espécie de sótão era, ou mostrava-se, como uma manhã de pensamentos bons, preguiças e sossego; iria para a casa da avó, não se negava uma certa verdade, diga-se, queria saber da avó impressões, previsões, noticias sobre o tal gerente, mas conciliaria os dois interesses, frutas filipes que não se desperdiçam. Quando chegou uma galinha dependurada numa trave era depenada, trave que, agora se dava conta, nunca tivera outra serventia, muitas galinhas ali perderam sua plumagem, a cabeça estranha reta para baixo puxada pela gravidade, o bico entreaberto, pesava, pesava mais do que se possa imaginar que pese uma insignificante cabeça de galinha, toda a leveza teria se esvaído dos ossos, das asas por aquele bico entreaberto, sentiu-se diferente, não se importava com estas cenas, mas em ocasião nenhuma se dera conta do peso da morte, se dava agora, a morte pesa, até mesmo num pequeno e leve animal plumado, é o que lhe vinha, o que subia para os mapas dos pensamentos, para as superfícies de sua mente, aquela idéia, espinha que não se quer ter no rosto mas que ao se olhar no espelho uma segunda vez, lá se revela e se escancara a indesejada, monte eriçado de vermelhidão e cume amarelento, vinha-lhe ao pensamento enquanto chegava sem que a avó se desse pela sua presença querida, sempre querida, sentia-se sempre seguro do amor da avó, se fazia ela de distraída, seus ouvidos eram olhos, seus olhos ouvidos, mas quieta, mansa, retirava as penas da ave que previamente tinha tomado um mergulho em água escaldante, ainda mais próximo olhou, Dias olhou entre admirado e espantado, duvidava da própria sinceridade neste momento, a cena do filme voltava, imaginava-se no filme espantado com a galinha dependurada na pequena trave, assim , atuando, ator e diretor, uma câmera aqui seguindo logo acima do seu ombro, na perspectiva dos seus olhos, a lente mostrava como era delicada a avó na extração de cada suave pena daquela pele sem sangue, arrepiada como se sentisse um frio horrível. Dizia o diretor, veja, veja como são delicadas suas mãos, siga filmando, é uma menina, uma menina que brinca, filme isso, uma menina romântica que colheu ali nos campos ajardinados da velha mansão uma flor, e brinca de bem-me-quer mal-me-quer.

9 comentários:

Mai disse...

Convenhamos que acordar depois das dez não é, digamos, cedo... Minha avó tinha uma história quando acordava a gente: Ela grtava batendo palmas:
"acordo, acorda, passarin que não deve nada a ninguém a essa hora já tá voando..."


Cena inusitada: - uma galinha sendo depenada...Ah! Dauri, como lembrei da casa de minha avó...

um beijo

Elcio Tuiribepi disse...

A mai tem razão..impossível não lmbrar de nossas avós, a minha, suiça brava...nos xingava em alemão...rsrs
torcer o pescoço de uma galinha era tarefa simples...
De vez em quando quebrava uma colher de pau na cabeça da gente...rs
Sua escrita como sempre nos prende na riqueza dos detalhes
Um abraço na alma

Dauri Batisti disse...

Mai, rsrsrs, recordemos o capítulo anterior, ele foi até a madrugada trabalhando no bar, lembra?, por isso, depois de fugir do estivador, escondido, se determinou a dormir até por volta do meio-dia. Acordou cedo, portanto...rsrsrs

Paula Barros disse...

Eu, já quase um vício, vim ler você, já é tarde e eu cansada. Estava a pouco na Academia Pernambucana de Letras, e conversava com um escritor, que falava do meu blog, da minha escrita, e eu falava dos seus contos. Falávamos de criar personagens, e eu dizia que ainda não consigo, e falava da sua facilidade (pelo menos aparenta para mim) de criar personagens.

Chego aqui, encontro Dias, a galinha, a avó, a menina, ah, a menina que colheu uma flor...e eu não conseguia ler direito porque lembrava do cheiro de café de um outro escrito seu e misturei tudo....e encontro Mai, e Élcio, e você sorrindo e conversando com Mai....

E eu peguei o tamborete e sentei na cozinha com vocês. rsrs E estou aqui batendo papo.

Voltarei!!!

beijo

Mai disse...

[acabei rindo junto com você]
tens razão: pra quem pouco dormiu, 10 horas ainda é cedo.

Dauri, gostei demais desta flor do template. Aliás, tenho percebido mudanças constantes, com inserção de elementos coloridos. E tem ficado bem legal.

Estou muito feliz junto com você, porque agora percebí que tens produzido quase um texto por dia. Hoje 27, há 21 textos já produzidos neste janeiro.

Somente quando você escrevia os poemas ou não-poemas, essa palavra chegava assim em tamanha profusão.

Muito bom, muito bom.

Essa palavra sempre tem vontade própria, né?
As vezes some as vezes transborda.


um beijo

Carla Diacov disse...

seguindo-te...
besta que só...


beijos

Paula Barros disse...

Dauri, não sei o que é "frutas filipes". Tem alguma explicação?

Essas pensamentos da galinha dependurada e da espinha, são fortes, fortes o suficiente para eu parar e reler, tentando refletir...porque sempre há algo da vida para refletir aqui, porque esta morte aqui falada, a da galinha, me fez lembrar outras mortes que morremos enquantos vivemos...o quanto de nós matamos ao longo da vida.

A imagem da flor está belíssima, linda na cor, com uma sensação boa de movimento, de se ondular. É bom de ficar olhando.

beijo

Dauri Batisti disse...

Paula,

filipe é um nome que se dá a frutas coladas; usávamos esse nome lá no interior do ES quando eu era criança.

Alguns dicionários registram.

FILIPE, Conjunto de duas sementes, de frutas inconhas, como duas bananas grudadas uma na outra.

Paula Barros disse...

Dauri, obrigada. Até coloquei no google, mas aparece um firma em Faro. rsrs

Não sei se conhece pitomba. E pitomba sempre vem algumas coladas. E brinca-se dizendo que quem comer vai ter filhos gêmeos.

abraço