24 janeiro 2011

Inesperado sol

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Fugiu-se dali o mais rápido possível depois de toda a trabalheira, não deixou contudo de ajudar também naqueles serviços finais quando todos se vão embora, inclusive o tal Justino Barroso, melhor mesmo que já se tivesse ido, quando todos se vão e é preciso ficar, recolher garrafas, juntar engradados, arrumar as mesas e cadeiras, passar uma vasoura no chão, enquanto a amiga dona do bar fechava suas contas, recolhia o dinheiro que a muito não via em um único dia. Havia muitas despesas a pagar, mas, decerto sobraria um bom dinheirinho; Dias, amanhã acerto com você, gritou de lá, não tem problema, respondeu, fechando as janelas, janelas antigas, tão bonitas, altas como uma porta, de duas bandas, uns vidros quebrados, madeira e tinta disputando os olhos dos dias e dias e dias, vamos descansar que já é hora. Durante a noite toda Dias trabalhou dançando e cantando como a obter na exaustão de um ritual os benefícios que se deseja. Agora não, agora trabalhava em silêncio, o silêncio caía ali sobre os dois naquele imenso e um dia bonito salão como água morna em banho sem pressa. Cada um sentado em pontos distantes, um olhando para o outro como a dizer tarefa cumprida, depois riram, seguiram um para o outro e se abraçaram em sigilos e cumplicidades de dores não partilhadas. Vamos, vamos descansar, disse Dias. A mulher ali mesmo morava no andar superior. Dias seguiu seu rumo; ouvia o som leve e rápido dos próprios passos, um galo aqui outro acolá, cantavam tristes e insistentes, alguém, alguns, gritando por ali estes gritos de fim de festa quando se vai embora tirando a camisa, o alcool hiperdimensionando as alegrias, pobres alegrias, nada além do que sempre corria por ali, as engrenagens funcionando, funcionando.

Seguiu passando por uns pequenos armazens fechados de portas grandes que vinham logo depois do bar, alguem gritou seu nome de longe no diminutivo, rindo, Diazinho, vai pra casa, hem! e outras babaquices do tipo, umas dez casas algumas habitadas e outras sem condições de abrigar alguém se sucediam numa linha reta, na frente um espaço grande como um campo de futebol, agora limpo dos entulhos retirados a mando do novo gerente, ao fundo, mas não mais na mesma linha, um pouco mais para a frente quatro armazens maiores. Tinha o dia já aquela cor macia de fim de madrugada, flor que se contempla longe da mão direta e pesada do sol, o ar carregava sem esforço um cheiro doce, quase imperceptível, de erva-de-santa-maria, que por ali tinham muitos pés. Entrou por entre o armazém dois e o três e seguiu depois deles por uma espécie de alameda em que as laterais eram carros cobertos de ferrugem, não lhes restara de toda a beleza e potência nos motores outro futuro senão aquele, naquela cor, abatido marrom; todavia, ao modo de olhares em retratos, olhares que clamam melancolicamente por vida em túmulos de datas tão distantes, mesmo que do ano anterior, datas em túmulos sempre são distantes, restavam alguns pontos e manchas e pedaços coloridos naqueles carros, num, noutro, num, noutro, marcas informes de alegrias findadas. Um navio apitou, doeu-lhe; todas as engrenagens seguiam intactas, de novo apitou, ainda mais dolorido, e de novo.

5 comentários:

Paula Barros disse...

"tinta disputando os olhos dos dias e dias e dias"

"um dia bonito salão como água morna em banho sem pressa"

"Tinha o dia já aquela cor macia de fim da madrugada, flor que se contempla longe da mão direta e pesada do sol.."


O todo sempre preenchido de maravilhas, de ideias fantásticas. Que transformam sempre o que poderia ser apenas uma descrição de cena, num texto muito especial.

Às vezes, algo nos seus textos me traz uma sensação como se você lembrasse, ou recordasse algo assim foi com este cheiro de erva-de-santa-maria.

bjs

Paula Barros disse...

O passarinho está lindo. Bem colorido, e voando. Sim, ele está voando, asinhas abertas, batendo. Ah, mas ele pode ser um beija-flor e está pairando perto de uma flor. Ele é um beija-flor. Mas ele está sorrindo. Sim, ele está sorrindo e feliz e colorido e voando e livre. Livre e solto e leve.

Adorei!!!!

Ontem a tarde lá no trabalho, estava nublado mas os pássaros cantavam tanto, tanto mesmo. E tinha uns bem-te-vis que cantavam muito. Me chamou.

Com a imagem das bicicletas, tentei escrever sobre quatro amigos que iam para Santiago de Compostela, partindo de um concelho de Portugal, mas não ficou legal.

bjs

Mai disse...

O dia e a noite, os dias...
E dia e noite, Dias...

"o alcool hiperdimensionando as alegrias, pobres alegrias, nada além..."

Há uma melancolia que permeia a personagem em seus cenários. Os apitos de navios são intensamente melancólicos.
Quase ouço uma trilha para esta história.

Gosto de pensar em engrenagens, mas sempre em funcionamento.


um beijo

MARIA HELENA disse...

Acabei de ler os últimos três capítulos e como sempre me encanta a sua arte em brincar (como você diz)com as palavras.
O Dias está me deixando curiosa e enternecida.Veremos...
Abç.

Ava disse...

Oi, Dauri!

Vejo que continuas a escrever, como se as palavras não tivessem nenhum mistério...

Saudades...