23 janeiro 2011

Inesperado sol

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Dias sempre teve o seu próprio canto para morar, o que poderia chamar de casa, desde criança, quando chegara à velha siderúrgica; de tempos em tempos mudava, lugares era o que não faltava naqueles muitos galpões, também nao carecia de imaginação e criatividade para montar sua casa, aqui, acolá. Em certas noites, todavia, sem saber por quê pois se entendia como corajoso, ou quando alguns sonhos rompiam seu sono com sustos e sobressaltos corria pelo escuro afora por entre os vultos formados pelos entulhos e ferragens para a casa da avó Luzia, e lá, naquela cama macia e cheirosa sempre pronta, já tranquilo e refeito dos seus medos, se determinava a não dormir para aproveitar a oportunidade e descobrir os segredos da boa velha. Desdobrava-se em tentativas de vencer o cansaço, o sono, e montar vigilância, permanecer de ouvidos bem atentos para os ruídos diferentes, seriam diferentes, reveladores e, então, de espreita encontraria o lugar certo para tudo observar; nos idos da madrugada, a avó se transformaria, ele tinha certeza, queria ver, num beija-flor, numa andorinha, quem sabe uma rolinha, num pássaro pequeno qualquer, pois supunha, era por estes rumos, como um passarinho esperto, que ela ia aos seus três santos lá no alto do céu, logo bem cedinho, antes do sol abrir todas as portas da luz, e saber deles coisas do futuro. O costume se mantinha, tantas coisas perdera, mas isto permanecia, a ligação entre futuro e alto do céu, não conseguia vencer aquela mania, ao contrario das pessoas que abaixam a cabeça nos momentos de pensar no futuro, ele olhava para o alto. Em algumas outras noites, quase derrubado pelo sono mas ainda não, a imaginação travessa levava-o fácil para mostrar a avó se transformando numa coruja horrível, ou num morcego pesado e fedorento, e então encobria a cabeça com o lençol e rezava, rezava ou tentava, misturando as palavras daquelas rezas que com ela mesma havia aprendido, especialmente aquela à Santa Catarina.

3 comentários:

Paula Barros disse...

Se este carro fosse amarelo lembrava um que vi numa exposição, e que eu ia colocar a foto dele lá no outro blog.

Quanto ao texto, nesta primeira leitura, eu disse: Vixe que coisa mais linda. Linda esta imagem da avó que se transforma em pássaro.

Luis Eustáquio Soares disse...

salve, querido amigo virtual, virtuoso, que sua narrativa está cada vez mais rizomática; um diagrama de novos atos nascentes.

saudações,

de la mancha

Mai disse...

"Dias sempre teve o seu próprio canto para morar"

...sempre teve seu próprio canto...

palavras em profusão, fluxo e fluxo.

quase não consigo alcançar você.

tomei pé das coisas, agora será daqui pra frente.

um beijo