21 janeiro 2011

Inesperado sol

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O estivador apareceu na porta do bar e olhou para um lado e para o outro, procurava-o com certeza, voltou a entrar. Dias apertou o que sobrara do cigarro sobre o cimento velho esbranquiçado da calçada com uma força excessiva como se esmagasse debaixo da brasa que se ia fazendo em cinzas um bicho peçonhento, uma lacraia, um verme qualquer. Levantou-se, agia como se estivesse numa cena de cinema, imaginava-se sempre num filme, cada insignificante momento ganhava importância, seus gestos ganhavam valor, às vezes cansava-se, umas poucas vezes esquecia aquilo, mas sempre retornava-lhe essa idéia, era preciso atuar bem, esfregou uma mão sobre a outra, ia à luta, respirou mais fundo o ar, ah o vento estava carregado de maresia, ainda mais forte do que de costume, gostava da maresia, lembranças de quando o abandono ainda não era contaminado pela consciência, quando o presente, duro, áspero, se contorcia em alegrias de viver livre, enganosas, traiçoeiras, mas alegrias. Bem sabia a um tempo que a alegria pode burlar a realidade, a ela se permite tomar de Deus este atributo, criar mundos. Dias levantou-se e voltou ao trabalho no balcão do bar, tinha se comprometido com a dona daquele malcheiroso estabelcimento que a ajudaria naquela noite. Já tinha trabalhado ali um tempinho, mas não fora capaz de suportar a quietude e as sombras daquele lugar, ali as cenas se desenrolavam muito vagarosamente.

4 comentários:

MARIA HELENA disse...

Há sombras mesmo em lugares alegres e nos momentos de alegria.
Estou goatando muito do romance e da maneira que você o está escrvendo.
Abç.

Tod(as) palavras disse...

estás sendo um mestre para os meus caminhos. um texto visceral e de muita intensidade. seguimos...
grande abraço, Dauri.

Paula Barros disse...

Como está forte este capítulo. O meio do texto é todo de frases que levam a reflexão profunda.

Um frase longa que me tira o fôlego, não por ser longa, não, ela está muito bem pontuada. Mas por identificação. Por ler como se fosse para mim neste momento uma verdade. Uma imagem no espelho.

A parte leve...o cheiro de maresia, gosto também.

abraço.

Jacinta Dantas disse...

E a história vai seguindo e, eu vou gostando do rapaz, o rapaz dramático que traz os dias no próprio nome.


Menino!
que desenhos são estes no cabeçalho do blog. A cada dia um mais bonito que o outro. Aquele que tem caminho-caminhonete-gente-e-florvermelha...
como você diria: É BONITO DEMAIS.

Beijo