08 março 2010

O último porto do rio
50

Lá vem o Onofre, diz José Bento, custei a ouvir, a casa perdida na desolação da pequena colônia abandonada que ficou para trás ainda me prendia a atenção e esfriava-a de um vento sul fora de época, dava-me um frio de sentir o destino como um inimigo que tendo vencido a peleja oferece a mão, Lá vem o Onofre apressado, repete, e então ouço, mas sem muita atenção. Senhor, continua, há algo estranho com o Onofre, este homem é sempre lento, parado igual maré morta, e o que o faz ter tanta pressa agora é o que vou saber. Então olho para o negro que vinha, e o seu cavalo manifestava, como o dono, o descostume da pressa. Mas vinha num bom trote, mesmo descompassado, vinha, e logo nos alcançou. Vou buscar umas ervas nas bandas da cachoeira do Zé Valente, respondeu às perguntas de José Bento, Maria Júlia não está nada bem, piorou nos últimos dias, parece impaludismo, mas é coisa mais grave, todos sabem. Ele falou assim sem saber de mim, sem saber que suas palavras me alcançavam como pedras, toras de madeira desatadas das amarras, tropa em trilhas estreitas e lamacentas escorregando pelas ribanceiras. Maria Júlia já vem doente de um tempo, mas agora as coisas se complicaram, ela anda com aquelas febres e calafrios de impaludimo, está muito pálida e fraca, continua o Onofre. Um silêncio rasga o céu e cobre todas as bocas, todos os pios de pássaros, todos os borbulhos de água, fico surdo ou o mundo perde os seus ruídos. Logo, na surdez, vejo o Onofre se despedindo, justicando sua presssa e se indo na direção contrária à nossa. Tento recordar aquele dia no baile, o último, o pedido que ela me fez, mas nenhum elemento novo me dá a recordação. Sobrepõe-se sobre a recordação do baile, daquela nossa conversa, sobre o seu pedido, a imagem de Maria Júlia no cais, me olhando, me olhando, me olhando com aquele seu olhar de anzol, sua sombrinha parando-se de seus giros... Meu Deus! e, agora, na recordação, por detrás dela, ao contrário daquela manhã, ao contrário da luz do dia, o que vejo é uma lua, cheia, solene, se erguendo num céu aberto. Começo a correr, Calma seu João Francisco, melhor é manter o passo acelerado que correr, diz José Bento. Seguimos. Se não leio em mim os mapas dos entendimentos das sinas, mapas encobertos pela neblina do frio destino que como sombra me acompanha, inimigo solidário, algo me concede, na ausência dos ruídos e das vozes, a percepção do rosto de José Bento. Seu rosto vai se tecendo de umas linhas novas, uma linha de aflição se encontra com outra, que se cruza com outra, e se emaranham todas no entorno dos olhos que se lançam dezenas de metros adiante, apertados e fixos no rumo da estrada. Observo-o de resvalo, num momento e noutro, e enquanto olho me indago, sem os tais mapas dos entendimentos de viver, sobre o amor que uma pessoa pode receber, ser tão querida, e, mesmo assim, não encontrar o sol levante, ter uma vida de se alongar em noites, ser capaz de chegar até à madrugada, pertinho da aurora, mas, mas nunca amanhecer em sol. Por quê?

6 comentários:

Dauri Batisti disse...

Dedico carinhosamente este capítulo 50 dO último porto do rio às mulheres que visitam o ESSAPALAVRA.

Obrigado!

Beijo.

Elcio Tuiribepi disse...

Homenagem justa...acho que não existe a possibilidade em mim de passar por aqui e não destacar uma parte com a qual me identifico na vida real...lá vai

Se não leio em mim os mapas dos entendimentos das sinas, mapas encobertos pela neblina do frio destino que como vento me acompanha, inimigo solidário, algo me concede, na ausência dos ruídos e das vozes

Simplesmente muito lindo...tem frases que atropelam a gente
Por favor...uma ambulãncia...rsrs
Um abraço na alma...

Jacinta Dantas disse...

Nossa!
esse eu li num fôlego só. Quanta emoção nas indagações de João Francisco. E, nas suas indagações, divago: É preciso saber-se amada.

Obrigada pela dedícatória. Hoje, fico com a frase da Clarice..." felizmente nasci mulher"
Que bom!
Beijo

Eurico disse...

Puxa vida! Quanta poesia nessa prosa!
Preciso tomar folêgo e beber esse texto, devagar...

Depois comento tudo.

Mai disse...

Um fôlego atlético. A narrativa deste texto veio com um bom respirar e o meu peito encheu foi de poesia.
Oh! Coisa linda!
Eu agradeço a parte que me cabe neste inventário. Belíssimo este capítulo, Dauri, fico pensando nas tantas coisas belas a serem vividas em terra. Aqui, uma cena mais bela que a outra som e imagem e lembranças evocadas.

Um beijo, @migo

Ilaine disse...

Obrigada, Dauri, por ser homenageada com um texto seu...diga-se, sem perda de tempo, belíssimo. "... suas palavras me alcançavam como como pedras...silêncio rasga o céu... nenhum elemento novo me dá a recordação... baatizar-me de vontades novas...se não leio em mim os mapas..." Uma prosa que embala, que envolve.

Beijo