24 janeiro 2010

O último porto do rio
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Existe um rio entre o olho e a carta, eu sei, e uma catraia, nenhum catraieiro, no barco atravesso sozinha, ou tento atravessar. Mas quando decido sei que vou por uma margem que abandonei no correr dos anos, ou no passar da vida. E quando leio, por este abandono de mim, ou pelo que perdi, ou na ilusao que me alimenta, sei, acrescento, somo, misturo-me. Jogam comigo quando colocam por debaixo da porta estas cartas um jogo sem regras, jogo-me nessas leituras e me apaixono. Se for do teu supor correto, dos teus baluartes, podes suprimir este apaixono-me, se sentires que este apaixono-me é palavra cedo demais, ao modo de acordar antes da hora, e perder. Mas deixemos isto de lado, por agora tenho outro caminho, vamos para o cais principal do porto ver a baleia que sobe pela baía.

Antes falo, pago-te para tecer estas flores que se juntarão a um corpo qualquer que desce à cova desnudo de ornamentação por conta da indigência. Não suporto. Um corpo tem que ter adornos, muitos, flores, folhagens de aromas, ou fitas, medalhas, cordões, rosários, crucifixos, tu me confecciona flores de tal jeito que quase não se distinguem das originais, a não ser pela ausência de perfumes, mas ainda assim lindas, e percebo, alteras as flores conforme os trechos que te pronuncio em minhas visitas, hoje noto, vai predominando em teus dedos estas pétalas que se vagueiam entre o azul, o vermelho e o roxo quaresma. O que fazes, sem ofender-te, não tenho outra intenção senão honrar-te, é arte, belle arti, mesmo que para indigentes finados. Logo que terminares estes ramalhetes leve-os sem demora à Confraria da Misericórdia, a próxima remessa doarei aos negros do Rosário. Deparei-me já em idas à Casa de Misericórdia, ali no campinho no cemitério da confraria, com restos de tuas artes junto aos ossos, covas abertas pelas enxurradas e pela maré, das flores perdurando os arames com seus volteios e pétalas de tecido. O cemitério tem que ser isolado, já se diz, no nível do mar não se pode enterrar ninguém, o sal queima os ossos, branqueia-os de uma luz quase sobrenatural. Muitos que passam por ai andam se desviando por caminhos mais longos.

Perdão, é que tive que responder à saudação do novo capitão do porto que passa apressado, bem, vamos, vamos ver a baleia que vem subindo, fato inusitado, uma baleia, a baleia entrou pela baía e vem subindo. Dizem não ser muito grande, mas vem festiva com a maré alta, como se quisesse aplauso pelos seus mergulhos e aparições na superfície. Grande multidão de povo já se junta pelas beiradas da ilha. Não devo ir?, me aconselhas?, vou sim e penso deverias ir também, e então poderíamos resolver pelo relato de vários olhos o que a baleia causou no Porto do Mar, a festa, o alvoroço, a mudança dos assuntos. O seu vômito não será um homem, Jonas, será o que vamos dizer, outros assuntos renovando-nos como um bom livro, as conversas insossas das horas já são derrubadas de suas bases por uma baleia desnorteada. E por falar falemos mais, fiquei sabendo, queres saber também?, acrescento, que o vômito cinzento da baleia, depois de muito tempo no mar e nas praias se transforma, âmbar, em delicioso perfume e infalível afrodisíaco, daquele tenho carências, dos franceses, deste não, me sobram precipitações, chuvas de. Deve-se, logicamente, a uma especial baleia a produção de tal regurgitamento, ou regurgitação, o que sugeres?, esse âmbar. Assim também será um poema, uma declaração em bela caligrafia numa carta, haverá alguém especial por detrás do âmbar das letras? Não, no caso das palavras parece-me que não.

15 comentários:

Maria Helena disse...

Querido secritor
Penso que a carência de prefume francês,mostra-nos a solidão de afeto da pobre senhora, que se aiivia e melhora sua autoestima enviando coroas de flores artificiais aos indigentes.Flores srtificiais mas quase perfeitas como é sua vida.Será isso?
Abraço

Silvana Nunes .'. disse...

Para mim exiiste sempre um alguém especial por trás do âmbar das letras.
FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... deseja um BOM DIA !
Saudações Florestais !

paula barros disse...

Dauri, essa frase falou comigo:
"alteras as flores conforme os trechos que te pronuncio em minhas visitas".

Sempre tem alguém espcial por detrás das letras...sempre! Mesmo que os olhos não vejam...sempre tem uma melodia no coração, mesmo quando os ouvidos não escutem...

beijo, bom dia!

Jaime Piedade Valente disse...

Talvez valha a pena dar uma vista de olhos aqui

marjoriebier disse...

Oi, oi... fazia tempo que não aparecia aqui. Voltei e encontrei delícias esbaldadas em versos. Que lindo!

=***

Márcio Ahimsa disse...

por detrás do âmbar das letras há apenas a idéia vaga de tecer, quem sabe uma rede de palavras.

Abraços.

Elcio Tuiribepi disse...

Dauri, obriogado pela visita lá no Verseiro...o que mais me agrada por aqui é poder colocar suas palavras dentro de um sentimento, como se fosse um poema onde as passagens narradas mostram no fundo algo menos elaborado que a genialidade de seu conto, mostra um cotidiano de vida, de histórias e sentimentos...acho que é isso...
Um grande abraço na alma...vida longa para "essapalavra"...

Wilson Torres Nanini disse...

Ótimo texto: odor de um oceano ao relento. Abraços!

Vivian disse...

..."essa palavra"!!!

ai quanta emoção nos trás!

levo encanto

e

deixo bjs

Dois Rios disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Silvana Nunes .'. disse...

Passando para dar mais uma lida.
Beijo grande.

Dois Rios disse...

Flores sem perfumes ornamentando a indigência de um sentimento.

Beijo, querido Dauri,
Inês

Cosmunicando disse...

a julgar por este, acho que vou começar a ler lá para trás desde o primeiro... muito bom, Dauri.
Você tem uma relação lúdica com a palavra, e cria belas imagens.
beijo

John Doe disse...

Ai estou contando os dias pro sabado chegar, quero lerte do começo como é devido. já comecei a copiar os textos pra um bloquinho de nota que fica na minha area de trabalho, pra ler sem uso da internet, ppois a minha aqui insiste em dar problemas...

Ígor Andrade disse...

Bonito texto!
Abraço, cara!