03 janeiro 2010

O último porto do rio
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Sai-se do Porto do Rio bem de madrugada para chegar ao Porto do Mar à noitinha, ou na noite bem avançada conforme o dia, e o mestre acelera ou retarda a descida, de acordo com a lua e com os seus conhecimentos, para dar com a vazante da maré na chegada ao estuário. Hoje ele não tem pressa, nem eu, que não tenho mais o que fazer no Porto do Mar, se bem que imagino que a senhora patroa vai me deixar em situação difícil quando desembarcarmos, e já me preocupo, e ele, o mestre, vai conduzindo a barcaça com calma, entre toadas e assuntos os mais diversos, ao contrário da senhora esposa do dono da companhia que parece levemente irritada com a lentidão da viagem e deseja chegar logo sabe-se lá pra quê. Mas na barcaça quem manda é o mestre, e não tem jeito, nem a contrariedade da senhora dá mudanças em seus planos, e além do mais ele obedece ao patrão e tem dele a confiança tanto para conduzir aquela barcaça, o dinheiro dos negócios do dia, quanto confiaça para conduzir a sua mulher. Acredito chegaremos com a lanterna da proa acesa, e o Porto do Mar pontilhado de luzes tanto no cais quanto nas casas e igrejas que lhe dão contorno. Penso o que me forço a pensar, abstraio-me do que se vai entre os assuntos, retiro do bolso um lápis e uma caderneta e escrevo umas palavras num início de carta. Imagino hoje um padre como destinatário e coloco em disfarces de metáforas a lista dos meus erros e covardias, inspirado pelas árvores que nesse ponto de um lado e de outro do rio lançam seus longos braços, arcos góticos formando uma nave por onde passamos. Se não rezo, nunca rezo, elevo meus olhos para os galhos e talvez, pelas frestas da folhagem, o Deus altíssimo enxergue meu olhar e me conceda um refrigério para os caminhos que faço em descompassos e atritos com o destino. Viro a folha da caderneta e um impulso parece forçar o grafite para as despedidas, encerrando a carta num único pecado confessado com desnecessárias palavras. Adeus é o que escrevo. E não mais escrevo, senão para um outro destinatário e sem a concorrência do lápis. Adeus a momentos, a certos momentos que fazem a diferença na vida que passa rápido pelo coração de um homem. Ponho meu nome como fim em rasuras, João Francisco, e solto na correnteza o papel amassado em pequena bola, disfarçadamente, sem entender o próprio gesto, com a mão submersa nas águas do Santa Maria.

4 comentários:

Maria Helena disse...

Estou acompanhando avidamente e fascinada o seu conto. Gosto de contemplar o que João Francisco vê, e principalmente viajar pelo seu interior descobrindo seus medos e anseios.È um personagem complexo e simples.Dá para entender?
Parabéns!Que tal ser um livro?
Abraços de Maria Helena

Mai disse...

"Hoje ele não tem pressa, nem eu..."
Ai lembrei que no primeiro capítulo eu li que havia um barqueiro que vinha quando nunca se esperava.

É assim a peleja da vida e se navega e se navega...
É bom ler você.

Anônimo disse...

Ciao Dauri,

Feliz 2010!
Parabens pelo seu blog, continua maravilhoso como sempre!
Estou ainda viajando, morrendo de frio. Nao repare a falta de acento, no teclado italiano falta ... che orrorre!!!
Estou com muita saudade!

Um abraçao!

Luiza

A Intérprete disse...

Oi,
Vim aqui para te alertar que O Teórico e Miss Violet (e outros fakes) são a mesma pessoa: uma maluca que engana blogueiros por aí há anos.
Já fui enganada no passado e agora alerto a quem puder pra que não sejam passados pra trás...
Vá ao meu blog (a-grande-farsa.blogspot.com) e leia toda a história sórdida, desde o início.
E avise seus amigos blogueiros!
Obrigada.