14 dezembro 2009

O último porto do rio

11

Escolho um paletó cinza de finas riscas sobre camisa branca, conto um dinheiro suficiente e enfio no bolso. Olho no espelho, acerto os bigodes e vejo a dúvida ainda a me provocar, ali, no revés da luz do lampião sobre o meu rosto, mas reafirmo, olhando em desafio os meus próprios olhos, a decisão tomada. Aquele pedido da Maria Júlia não poderia ser negado. Puxo pela corrente o relógio, ele vem de sobre o peito de onde vem também a lembrança do seu olhar, como se me mirasse agora com a mesma tristeza que me banhou ao me fazer o pedido num canto do salão de baile. Se a alegria adensa o corpo de fibras e forças, a tristeza faz líquida a alma, cheia, a vazar nos olhos, várzeas de inundação. Apresso-me, recoloco o relógio no bolso, tomo o chapéu e sigo pelas ruas escuras na direção do cais. Tive a permissão de ir ao porto do mar sustentada por argumentos não tão verdadeiros, mas bem sinceros na intenção. Desceria numa das barcaças do amanhecer de sexta-feira e no fim da manhã de segunda-feira já estaria de volta, em nada prejudicando o trabalho. O meu jovem auxiliar cuidaria de por em prática pequenas orientações. Maria Júlia espera a barcaça no porto da curva dos negros. Assusto-me quando vejo que também desce os degraus do cais, no suave escuro da madrugada, a senhora esposa, jovem esposa, linda, do dono da companhia. Manifesta-se ela admirada da minha viagem, elogia minha distinção, dizendo quase não me reconhecer, o que me deixa sem saber o que falar, o que os homens do cais percebem, e me convida para tomar um lugar na sua barcaça. Quero dizer que viajarei muito bem acomodado numa das barcaças de café, mas ela insiste, enfática no convite, espontânea no modo de falar, e, inesperadamente preso, assanhaço em alçapão, não me sobra outro jeito senão aceitar. A senhora e jovem esposa do dono da companhia me diz que decidira de véspera fazer a viagem. Teria lhe contado o marido sobre o minha ida ao porto do mar, é um relâmpago de pensamento que tenho. Sinto-me alterado nos batimentos do coração pensando em como resolver a situação no porto da curva dos negros, onde Maria Júlia me aguarda.

9 comentários:

Dauri Batisti disse...

Vai para Maria Helena a dedicação do capítulo 11 desta despretenciosa história que estou escrevendo.

Tento escrever os capítulos de modo que as pessoas possam tomar contato com o meu texto sem ter que necessariamente ler todos os outros capítulos.

Aos que me acompanham peço paciência, pois que escrevo sem pressa de chegar ao fim. Como nos poemas, há aqui um prazer, uma suave diversão.

Obrigado.

Sejam sempre benvindos.

paula barros disse...

...aguardando cenas dos próximos capítulos.


"Se a alegria adensa o corpo de fibras e forças, a tristeza faz líquida a alma, cheia, a vazar nos olhos, várzeas de inundação."

Eu gostei, eu gostei demais desse trecho.

abraço!

Mai disse...

Definitivamente ele é elegante, denso, secreto. Mistérios o rondam aqui. Mas um traço interessante é que em todos os dias e noites em que ele saiu da estiva, em todos os contos, ele sempre tinha dúvidas.
Um voz que fala alto.

um beijo.

respondi à você por e-mail. preferí, como sempre.

Maria Helena disse...

Obrigada por lembrar-se de sua fiel leitora . Gosto de respirar,sentir e mergulhar nas águas ora mansas,ora turvas,ora turbulentas da poesia e você consegue
imprimir beleza e poesia até no ato de tirar e guardar o relógio.
O que será de Maria Júlia? Estou esperando ansiosa o próximo capítulo.
Abração de Maria Helena

paula barros disse...

Dauri, esqueci de dizer que lembrei do meu avô materno, que tinha um relógio como esse descrito, consegui até ver como ele olhava as horas.

Admiro a sua forma de escrever, de encaminhar a história, a criatividade, o domínio dos personagens.

beijo

um cavaleiro andante na terra do carvão disse...

.
.
vi seu blog linkado pela primeira vez no blog "asgard: terra da poesia" do blogueiro átila siqueira.

acabei acessando e nunca mais esqueci, linkei o "essa palavra" em meu blog imediatamente. para sempre acompanhar.

aqui em Santa Catarina há muitas praias... e "o último porto do rio" simplesmente faz-me repassar pelas várias praias e mares que já visitei em SC, quando trabalhei diretamente com turismo em um shopping de Criciúma.

parágrafo primeiro:
- você é escritor? vive disso? é um hobby? ou é somente o fato de morar em vitória que as coisas acontecem? rsrsrrs

paragráfo único: (hehehee)
- a forma como escreves, a leveza, as cores do seu blog, o fundo branco.. é de uma áurea muito boa e de uma harmonia intrigante para mim. parabéns.

venho sempre aqui tentar responder a minha intriga e o que acabo ganhando gratuitamente é a inspiração para também, continuar a compor e a escrever.

grande abraço.
obrigado pela visita!

Carla disse...

gostei do estilo e das palavras que aqui encontrei

Elcio Tuiribepi disse...

Olá Dauri, acabei de comentar lá na Paula e logo depois vi seu comentário lá no meu pé de versos...
Voltando hoje e colocando as palavras em dia...
Seria um paletó de linho como o da música do Fagner, sei lá, mas assim que fui lendo lembrei deste pedaço da música.
Continue sem pressa Dauri...
Um abraço na alma...uma ótima sexta feira para você...

Oliver Pickwick disse...

A história continua atraente, por sinal, com um incremento em seus pontos mais fortes: a acuracidade da descrição dos ambientes; a composição rica e minuciosa das personagens; além da linguagem leve, mas nem por isso menos apurada.
Aguardo o próximo.
Um abraço!