27 novembro 2009

O último porto do rio

3


Ir para o bar é ir para lugar nenhum, onde, suponho, apesar de me enganar algumas vezes, uma mão pesada não me apertará o peito. Ali me caem certas palavras para as cartas que escrevo sem saber para quem. Ficar ali entre uma dose e outra reverte o poderoso fluxo do mundo, força o nada. É nadar em suas águas frias como se fossem mornas. As horas ali também passam, claro, mas a lâmina é tão fina e incisiva que o tempo sangra, e, nem se percebe que há um corte. Depois, quanto tempo não sei, ao voltar para casa, fica o bar ali como se nunca tivesse existido.

7 comentários:

Mai disse...

Ah! que bom ler você...
E a tensão rebaixa e imediatamente o mundo fica dormente a dor adormece e tudo em volta fica anestesiado e lento como se não passasse de um sonho. E o tempo e as pessoas se apagam, as dores e as palavras apagam e o peso das mãos que pesam não comprime por algum instante. E apesar de nada mudar, beber ou escrever anestesia tanto quanto o que bebe-se num bar.

E você consegue destampar um recipiente qualquer, de onde escorre isso que sem beber escrevo aqui.

Carinho,

Juliano disse...

O bar fica ali, sendo que ele tem tantas histórias para contar.

Abraços Dauri

Maria Helena disse...

Acho que todos têm um bar dentro de si.
Gostei do que li.
Abraço de Maria Helena

paula barros disse...

E eu li o último post, em vez de porto do rio. rsrs Ufa!!!

As vezes me sinto assim quando saio para dançar. Tem até umas mãos que apertam, mas não aperta o peito (rsrs o lado de dentro, da para entender né?)

Tenho tentado verificar onde as águas são mornas e onde a vida flui melhor, e que o passar dela me proporcione brisa que afaguem o peito (o de dentro. rsrs).

Ah! Dauri, as horas passam.

beijo

(E que esse último porto do rio, seja só mais um porto de um bom viajante, e que faz viajar por mares de emoção.)

Eurico disse...

O rio atravessa a mesa, e lava e leva os copos, e as toalhas, e as gentes, nas vazantes e enchentes, o rio passa e a vida é líquida...

(Vi com teus olhos...)


Abraço fraterno, Poeta.

Rafael Castellar das Neves disse...

Isso mesmo Dauri!! Descreveu muito bem a "ida ao bar" como poucos entendem. Concordo com você sobre como força o nada e as coisas se tornam mais brandas, mesmo que por algumas das loucas horas que correm muito rápido!

Abraço,

Rafael

Mai disse...

Eu compreendi o que você falou e sim, tens razão, sobretudo quando falas que o leitor escreve enquanto lê porque em verdade eu sempre penso que no segundo primeiro em que partilhamos publicamente, na net ou em livro, aquele texto segue feito um filho que ganha o mundo e não volta, nunca mais do mesmo jeito.

Sou eu quem agradeço, Dauri.
Aqui eu solto a mão.