20 outubro 2009

Sacolas plásticas II

O resto de suas asas se espalhava,
películas plásticas, pretas, colabadas,
uma nuvem assustadora enrugada,
caída, presa num destino, coisa
triste de se ver. A água seguia,
de um modo ou de outro, ao modo da vida.
Suja mas seguia. A água escapava
até evaporar-se ou cair no ralo e seguir,
mas a sombra ficava, ainda mais enrugada
velha, assustadora. A sombra, a sacola,
grande, preta, agarrada por uma ponta
na pedra do meio-fio não ia, não ia.

11 comentários:

Juliano disse...

Sempre tem lgo que nos prende aos lugares.

Abraços Dauri.

Maria Helena disse...

Nunca imaginei que sacolas plásticas pudessem gerar poemas tão bonitos,apesar de tristes.Você tira água e perfume das pedras.
Bjs
Maria Helena

Mai disse...

É. É feio o lixo que degrada e não se degrada como as sacolas plásticas enrugadas e cheias de resíduos ficam agarradas no leito dos rios asfixiando a vida.
É é bela a reciclagem e esse teu isso que joga prá fora do lixo um poema assim.
Não-poetas são 'isso', artesãos de palavras que fazem do lixo poemas.
um beijo, amigo.

Vivian disse...

...que mágioo olhar é este
que é teu e que olha o lixo
da rua nas entranhas de um
poema escondido no meio-fio?

que lindo!

bj

Eurico disse...

Tenho uma amiga, a artista Meri Bezerra, que colava tudo o que encontrava em suas telas. Bem, fazia delas obras abstratas de rara beleza. As tintas e pastéis de variados tons tornavam o lixo das ruas em pura arte. Objetos estéticos, dizia-me ela, nos idos de 1990.
Lendo os teus dois poemas lembrei daquela pintora "materista". Tu fazes isso com as palavras, com as imagens. E "disso" vem a poesia...

Unseen Rajasthan disse...

Nice post !! Words are nice !! Thanks for sharing..Unseen Rajasthan

paula barros disse...

Dauri, é difícil ler você sem querer ler as metafóras que me transportam para a vida, para o dia a dia, para as relações, para o ser humano.

Tudo tem o lado bom e o ruim. Talvez vendo um pouco mais além, não veja o óbvio, o simples. Não sinta o "normal".

O lixo, os sacos plásticos, a sujeira, a sarjeta, a água contaminada....vejo, sinto, sofro.

Mas me chama a atenção - "presa num destino". E o destino segue, e a vida vai, e muitas e muitas vezes nós vamos seguindo com as asas presas, com os sonhos acorrentados, com a voz sem poder gritar...



um abraço

alua.estrelas disse...

É verdade... Às vezes, nem nos damos conta de que algo nos prende, nos impede de prosseguir, ir por diferentes caminhos...
E que forma para você nos mostrar isso... Lindo!!!

Saudade de passar por aqui... Beijos e ótimo restinho de semana!

Tatiane Trajano disse...

E entre a pedra e a sacola presa, tinha um poema, uma poesia, uma alma em palavras a se revelar.


Beijos, querido!

Opuntia disse...

A sacola grande, preta, fazia sombra, era a sombra. Ela pode representar a "sombra de nossa consciência", o que nos impede de prestar mais atenção à natureza.

Bjos

[ rod ] ® disse...

vejo em ti um pouco de mim... e a sensação do desafio sempre em busca do maior entendimento ao tão pouco sentido... perfeita conotação aos sacos que tanto incomodam ao todo... abs.