15 junho 2009

(lendo um romance japonês)

No trem o tempo. O vagão vago, na janela
o olho vazado. Uma volta, uma ida
a paisagem que pesa de invernos e passados.

O livro na mão, o encanto, uma história,
a vida, a viagem. Na verdade a verdade
é a dor que inventa um sentido.

Passam, pesam, pesados fardos, olhares de desejos
que não se tornaram visão. Os sinos, sinos ao fim,
a cada ano é o que resta, sombras de esperas,

felicidades que não chegam. Uma, algumas.
Não basta. Versos são vagões que se vão num trem
que segue e leva, leva ou traz... uma história.

Não diz good-bye o que o coração carrega.
Sempre pesa, de um modo ou de outro a lembrança.
Afunda o verso no tempo, é fundo o que doi.

Por isso os olhos pela janela se perdem.
As paisagens: são gostos pessoais
como o amor que se tem, que se teve,

que se quer reviver. Rever as paisagens
da janela do trem, do vagão panorâmico
reforça o amor, renova a dor.

Talvez parar na próxima estação,
tomar a volta e fazer a ida para a aceitação,
o amor, ah o amor, não se revive.

Outros amores vem. E se misturam com os primeiros,
com os dias terceiros, dias de adeus. Segundo
é quem ama, o primeiro é sempre quem se ama.

Sinos, vozes sem sentimentos. De que adianta
ouví-los. Os ouvidos sofrem o repique na mente.
Recolher versos, acolher uma certa poesia,

a sorte. Se boa, se não. Mas. Nas páginas
sempre são incompletos aqueles poemas.
A vida chega logo na estação de destino.

10 comentários:

Priscila Lopes disse...

Esse poema é sensacional, Dauri! Que ritmo bom-bom-bom-bom... Mas não é ritmo só, é conteúdo também, é leveza.

Um abraço!

Germano Xavier disse...

Dauri, sinceramente, eu leio tua poesia e tenho de me calar, porque vai ser inútil qualquer apreciação minha de maneira mais analítica. Eu sinto uma palavra veraz, forte e congruente. E isso basta.

Sobre o "mal-do-século", foi só força de expressão, nada de mais importante.

Abraço forte, Dauri Jack.
Sigamos...

Anônimo disse...

A leitura do seu poema fez aflorar as sensações que uma viagem desperta. Os opostos do encontrar-se e despedir-se. A viagem que nos introduz em nós e nos leva ao enfrentamento de nós mesmos. Ver na janela passarem árvores, ventos, verdes, vidas, reflexões...
Obrigado. Fraterno abraço!
Charles.

Eurico disse...

E a viagem é a duração, o durante. "Andar tanto está em elevar o pé como em pisar o chão." Vou acompanhar a "leitura" desse romance japonês.

Efigênia Coutinho disse...

Dauri Batisti , sua poesia merece ser lida e relida, pois tem conteúdo muito poético e bem
escrita. Meus cumprimentos a você,
fiquei feliz de vim neste seu espaço literário,
Efigênia Coutinho

Fernando Rozano disse...

também gosto muito da tua escrita, que nos remete a vários universos e instigam o pensamento, a percepção. textos que nos conduzem, com certeza, à maturidade de um poeta. meu abraço amigo.

mundo azul disse...

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Meu inspiradíssimo p...escritor...

A felicidade está em tudo! São os nossos sentidos que estabelecem se são ou não momentos felizes... Amores não voltam.
Não mesmo.
Emoções não se renovam, pelo menos não na antiga forma que muitas vezes teimamos em conservar.
Nada é estático.
Tudo está em constante movimento.
Quando aprendermos que assim é, começaremos uma vida realmente feliz...

Adoro ler o que você escreve!

Beijos no coração...

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paula barros disse...

"Versos são vagões que se vão num trem
que segue e leva, leva ou traz..."


Versos
Levam e trazem
Tocam a alma
Despertam sentimentos e sensações
Acordam o inconsciente
Chamam para a realidade
Fazem sonhar

Versos
No coração
Apitam, aceleram, descarrilham...

Onde eles vão parar
Os lugares que vão viajar
Até onde a viagem vai seguir
Independe do maquinista (escritor) ou do passageiro (leitor)

Versos
São sonhos
Viagens
Por trilhos invesíveis do sentir
Do imaginário.

beijo

paula barros disse...

Dauri,

Vir aqui é pensar em dizer uma coisa e escrever outra, e tantas outras ficam pendentes para serem escritas.

boa quinta!

Germano Xavier disse...

Relendo e novas flores nascem no asfalto.


Abraço forte, Dauri Jack.
Sigamos...