28 abril 2009

XIII

Há um querer de alívio de dor,
e o desejo de uma luz, linda luz
da lua
que anda escondida. Esperar
a noite é a única saída. Preparar
a lamparina.
Quando passa a tarde, passará a dor.

Colher o fogo, recolher as faíscas,
não desperdiçar as cinzas, arremessá-las
no jardim
como adubo. Me refaço luz no escuro da noite,
me debruço sobre o muro do jardim e vejo um
devagar.
Tu não sabes o que é um devagar?

Devagar é uma flor. O devagar
quando dá flor, morre. Morre devagar,
tão
devagar que ninguém percebe. A flor dura, dura,
mesmo quando morre, dura. E tanto dura a flor que
engana
a todos. Pensam que o devagar vive devagar.

11 comentários:

Avassaladora disse...

Dauri, ler vc é fazer uma louca viagem em um mundo desconhecido...
É imaginar o inimaginável...
É sonhar o improvável...
Tudo isso é o que sinto ao ler vc!


Beijos e carinhos!

paula barros disse...

A relação com a tarde e a dor sempre me chama a atenção.

"não desperdiçar as cinzas, arremessá-las no jardim como adubo" Quantas e quantas vezes precisamos nos refazer das cinzas, adubar a nós mesmos, para continuar sorrindo e depois irradiar luz e energia ao outro.

Ah, Dauri, ler você sempre me faz lembrar umas coisas, lembrar de mim. Fico divagando.


um abraço, um abraço

Vieira Calado disse...

Devagar é uma flor!

Nada de pressas...

Aproveitar os momentos, saboreando-os lentamente.

Um abraço.

Gabriela Magnani disse...

Aproveitar cada segundo, esse é o objetivo. Um beijo.

Dora disse...

Nada mais desafiante como ler o não-poeta! Quer luz, quer alívio da dor, quer um "devagar".
Definindo "devagar": uma flor. E a gente solta a imaginação, a partir daí...O devagar vive depressa, então? Contradições. O não-poeta é um mestre em mostrar o avesso do avesso, do avesso...
Beijos, Dauri.

Dauri Batisti disse...

Dora, rsrs, o devagar não vive
depressa, nem morre depressa, morre,
devagar. A luz da noite alivia a dor que se tem à tarde. A tarde também
morre devagar. Devagar cai...

Beijo.

Assim que sou disse...

Dauri,

Te leio pela primeira vez. E leio bem devagar porque devagar eu leio e divago. A linguagem poética não morre, mas anda bem devagar, instiga a alma, inspira o cheiro bom da flor. Quem sabe, devagar.

Muito lindo!! Se quiser me ler, estou no www.eassimquesou@blogspot.com, meu blog pessoal e de textos confessionais. Também estou em um blog de criação, o www. criativesse.blogspot.com, onde - escrava que sou das palavras - escrevo crônicas todas as sextas-feiras.

bjs. Veronica

Vivian disse...

...e devagar fui te lendo.
devagar te sentindo,
e de devagar me emocionando
como só pode acontecer toda
vez que venho aqui...

adoro

bjs meus

Mai disse...

Essa palavra é tempo.
Apressa ou retarda esse isso que infelicita. Um isso que acorrenta.
Essa palavra que é a tua liberdade criativa. Esse teu isso que fala do tempo e que é belo porque é verdade. E faz feliz nesse
átomo-faísca-luz.
Não somos livres mas estive livre em tua imaginação.

Bárbaro!
Eu amoleço devagar.
Eu te leio devagar e, de um vagar, esse vazio que devagar ou apressada, tento esquecer, buscando às pressas um qualquer outro, um ilusório ou um flash, uma fagulha, uma faísca que ilumine esse vagar devagar, talvez ninguém escape.

Mas cedo ou tarde à tarde uma faísca apressada trará luz.
O sol se deita devagar por trás das nuvens.
E quando a lua apressada levantar, acenderei uma luz e espalharei as cinzas.
Pois devagar ou apressada a morte é certa que virá. E devagar é mesmo a flor que eu, adubo-pó, também serei.

Ah! que lindo esse teu isso de agora.
Deixa te falar que algumas de tuas séries são bem sonoras. Esta é pura imagem.
Muito, muito bom.

Um beijo,
Mai

Camilla Tebet disse...

Sabio texto. Também sinto que com o fim da tarde a dor diminui. Essa coisa de lusco fusco inspira tanto...
principalmente poetas como vc, que falam devagar.

octavio roggiero neto disse...

Oi, Dauri, depois de uma eternidade, estou eu aqui... Meu, nunca pensei que publicar um livro desse esse trabalho todo. Estou aos poucos voltando a respirar mais aliviado agora que recebi os exemplares. Mas só um pouco aliviado. Tudo ocorrendo de última hora, tantas coisas ainda a providenciar. E você aqui, transbordante de Poesia. Estou devendo, estou ausente, mas não é só daqui não, é meio que do mundo também. Tenho só um certo medo de desaparecer e nem eu mesmo saber onde estou...