26 março 2009

III

Tinha uma longa viagem pela frente.
Admitir o fim do casamento era difícil.
Caminhoneiro desde muito tempo,
pensou num grande cavalo voador

para ir logo, voltar e abrir o jogo.

Dizer a verdade. Era tarde, mas já era hora.
Aproveitaria a noite para adiantar-se no caminho,
o que mais haveria de querer a própria alma?
Bem longe um pneu esvaziou-se. Parou para trocá-lo.

O incompreensível fazendo suas exigências.

A estrada já distante e os pensamentos longos,
os sentimentos circulando em redemoinhos,
procurando palavras pra dizer que tudo acabou,
que já vivia outro amor há um bom tempo.

Alta madrugada. Uma longa reta em pequenas ondulações.

Quando se deu por si, logo ali, ao lado do caminhão parado,
um objeto estranho, luminoso, subia e descia, ia e vinha.
Ele sabia, tinha certeza, era uma nave espacial.
A luz do amanhecer vinha longe

e o medo bem perto. Sentiu,

algo iria acontecer, de ruim talvez.
Quando acordou, três dias depois,
a vertigem longa não apagara as impressões
do contato com mundos tão misteriosos.

Estava na cama de um hospital,

a alma tocava-se de estranhos sentimentos,
distraindo-lhe de outras marcas. Por um tempo.
Mas logo percebeu uma ardência nos testículos.
Levou rapidamente a mão até o meio das pernas.

Lá estavam os dois bagos.

10 comentários:

[ rod ] disse...

Olá meu caro,

o dogMas esta concorrendo na categoria BLOG REFLEXIVO neste site:

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Se você acompanha e aprecia o que escrevo... passa por lá e vote.

Eu e o dogMas agradecemos.

Pipilo Cazuzete disse...

Depois de séculos sem passar por aqui me sinto super satisfeito e percebo que a qualidade e a criatividade dos seus textos continuam me impressionando desmedidamente. Um abraço.

Mai disse...

...Amores e estradas. Sonhos e descaminhos... Outras palavras.

Beijo.

Tatiana disse...

Olá Dauri...
desculpa a minha ausência em palavras no seu blog.

Estar aqui é um convite a reflexão e requer minha máxima atenção!

Tenha um final de semana muito especial!

Um abraço carinhoso

lyani disse...

Dauri, desculpe a ausência, mas sabe que sou tua fã, não é?
Este em particular está muito surpreendente, diferente do que já li aqui com você. Mas gostei muito também.
Bjos,
Ly

Eurico disse...

A realidade não seria mais surpreendente do que é... a intervenção mágica do lirismo,a realidade se mostra em sua face de estranhamento: a realidade enquanto fermento do mito.
Lembrou-me, quanto à forma, não ao conteúdo, da passagem do Dom Quixote pelo retábulo do Mestre Pedro: o real como pano de fundo para o maravilhoso.
Perfeito, na forma.
Pura poesia contemporânea, no conteúdo.
Eis um diálogo com a lírica pós-moderna. Se isso lá é possível!
Abraço fraterno e admirado!

paula barros disse...

"O incompreensível fazendo suas exigências"

A vida é cheia dessas paradas, de mudanças de rotas, quero sempre acreditar que são para o meu bem, mesmo quando me sinto atropelada na estrada da vida.

Acompanhando, entre frases poéticas, que estranhamente me iluminam e emocionam e o mistério da série.

beijo

Pipilo Cazuzete disse...

Será sempre um prazer visitá-lo. O norte do ES é lindo, amo aquelas terras. Quanto ao drummond não o conheço pela fama. Descobri Drummond aos 14 anos na biblioteca do colégio público que estudava em Barra de São Francisco, encontrei perdido no meio dos outros livros, a obra: "amar se aprende amando" li, amei e nunca mais o abandonei, na minha ignorância de adolescente do interior, descobri só um tempo depois que aquele homem doce se tratava de um poeta famoso. Parece rídiculo mais foi assim que conheci Drummond. Abraço.

Gabriela Magnani disse...

Adoro vir aqui

EDER RIBEIRO disse...

Dei boas risadas, me vez lembrar qdo operando da vasectomia o médico, ao fazer o corte me perguntou se eu estava sentido alguma coisa, lhe respondi que o importante era eu sentir algo depois da cirúrgia. Abçs.